Andava pela casa a dançar ao som de musica tradicional chinesa, com o cabelo amarrado e empastado de mascara hidratante, vestida apenas com a minha saia branca rodada e a lingerie vermelha La Perla que os meus amigos me deram no Natal passado, quando tocou a campainha. Procurei uma camisola na desarrumação do quarto e fui abrir. Eras tu.
Sentamo-nos no sofá da sala a conversar nada de importante. Apercebo-me que tive saudades do teu modo coquete, do teu sarcasmo arrogante, de ti.
A última vez que nos vimos foi há pelo menos cinco meses, na noite em que nos beijamos. Começaste a não me atender as chamadas, não me respondeste às mensagens. Percebi que te querias distanciar e não quis forçar a situação, não insisti.
- Peço-te desculpa, mas tenho que ir lavar o cabelo. Já deves ter reparado que tenho uma máscara aplicada. Não demoro, é só passar por água.
Na casa de banho, enquanto a água morna escorre pelo meu cabelo, revejo aquela noite. Deitadas a conversar, tu a saberes o que eu sentia por ti, eu expectante por uma reacção que chegou naquele roçar de lábios e de língua. E depois o silêncio.
Sento-me de novo ao teu lado no sofá ainda a borrifar o cabelo com o condicionador. Contas-me uma história, passada no hospital onde andas a trabalhar, de um doente que tinha citus inversus. Eu vou-me penteando enquanto te ouço.
- O teu cabelo está tão comprido! Ultrapassa o teu umbigo. – Diz, e segura-me a ponta de um caracol.
- Só se nota assim, molhado. Ajudas-me a pentear?
Estamos caladas enquanto me escovas o cabelo. Não está embaraçado, mas continuas a escovar-mo.
- Está macio.
- É dos produtos que lhe ponho. Não sabes o trabalho que me dá.
E calamo-nos de novo. O silêncio torna-se desconfortável ao ponto de decidires começar a falar a sério.
- Senti a tua falta. Não podemos voltar a ser como antes?