quinta-feira, julho 14, 2005

Sete prás oito

O cenário encontra-se desconsertado e confuso. A cama desmontada jaz amontoada num canto da divisão, com as suas tábuas e parafusos emaranhados num montículo compacto. O colchão permanece no centro do quarto, coberto por dois ou três lençóis e uma colcha de felpa. O guarda-vestidos desapareceu na quinta-feira passada e os tapetes estão deitados na varanda da cozinha…A cómoda é o único objecto que permanece aconchegado no seu lugar do costume, algures entre a porta e o puff rubro.

O meu príncipe está debruçado na janela. Em gestos pausados e lânguidos fuma um cigarro interminável, enquanto eu, enrodilhada sob um lençol qualquer tento procurar sobre os tacos do soalho, um brinco que perdi na noite anterior…
“Oh amor, viste o meu brinco?”-pergunto-lhe num soluço
“Não!” -responde ele de maneira seca
“Oh amor…ajuda-me a encontra-lo. Preciso de ir embora…Olha as horas…Que merda!”
Passados uns cinco minutos de procura desvairada, quando eu estava prestes a desistir de tão injusta demanda (é que vocês não estão bem a ver a confusão que por ali ía), ele dirige-se a mim, abraça-me, sussurra-me “doces” no ouvido e diz baixo, apenas para meu deleite:
“E se eu te disser que esse brinco caro que tanto adoras, está escondido no meu punho…E se eu te disser que não to dou? Ficas?”


Patric Shaw