quarta-feira, junho 08, 2005

O mercado

- Tenho uma bolha na articulação interfalângica do quarto dedo do pé esquerdo, logo abaixo da fitinha da sandália – digo.
- Tu estás é bêbeda! – Refila a Bo. O tom de voz é demasiado alto e denuncia que também ela bebeu de mais.
- Bêbados estão vocês todos! É a única explicação para me terem trazido aqui! – Atira-nos o Bernardo. - Que decadência.
Esta noite foi de festa, o Rui fez anos.

O Rui é jornalista. Nós os dois temos uma história paralela. Em público agimos como se nada se passasse. A Bo sabe e presumo que o Bernardo, se não sabe, desconfia.

O Bernardo é economista. É giro, atlético, educado, informado, fica bem de fato e é gay. Está sempre atrasado, é cusco, adora falar mal, cobiça os mesmos gajos que eu, ensina-me muito acerca de música e tecnologia (um vício comum a todos os meus amigos), é um puritano e um romântico que se magoa facilmente. Adoro-o.

No fim de jantar estivemos num bar, depois a uma discoteca e agora o aniversariante escolheu o mercado para ir tomar o pequeno-almoço. Diz que é uma tradição que tem desde a faculdade.
Eu gostei da ideia.
Com os olhos escondidos por detrás dos óculos escuros posso observar o ambiente em que estou, bastante diferente daquele que acabamos de abandonar. As pessoas da noite estão maquilhadas, os corpos são bonitos, são atléticos ou magros. Tudo brilha.
O mercado tem uma beleza diferente: os sons no ar, tem muita luz, tem as cores dos vegetais e frutas, tem pessoas de todas as idades, os rostos que mostram uma vida, há sotaques rurais a apregoar, há as imagens da Rainha Santa e da Senhora de Fátima a enfeitar as bancas e os talhos. No ar cheira a peixe, a pão, a frutas e a desinfectantes.
- Já viram a quantidade de pessoas jovens que estão aqui? É anacrónico! Nunca ouviram falar de supermercados?
Não era só o Bernardo que olhava de lado para as pessoas à nossa volta. As pessoas à nossa volta também olhavam de lado para nós. Estávamos desenquadrados com a nossa roupa da noite e a aura de cheiro a tabaco.
-Vamos comer o quê?
- Morangos! Compramos dois quilos, pedimos à senhora para os lavar e vamos para a praia.
- Sim, vamos sair daqui!
- Eu quero cerejas.

A praia era a da Figueira da Foz. A manhã estava nublada e um vento gelado com cheiro a maresia levou-os a não quererem sair do carro. Eu queria molhar os pés. A água salgada tem poderes curativos, ou pelos menos o iodo destas praias faz bem à sinusite. Meti na cabeça que tinha que molhar a bolha do meu pé na água.
- Estas a ver ali aquele fumo? É a Socursel, ou assim uma coisa. Fabricas de pasta de papel. Ainda achas que faz bem?
- Eu quero ir. Não querem vou sozinha. - Salto fora do carro e atiro as sandálias lá para dentro. O chão está frio.
- Espera! Não vais sozinha, eu vou contigo. – Disse o Rui, que tinha estado bastante calado.
- Isso é tão perigoso. Não se comam na praia! – Atira a Bo, antes dele fechar a porta do carro. Agora o Bernardo já sabe.Descemos as escadas e atravessámos o deserto de areia que nos afastava do mar. Estava bravo, o mar, e a água estava gelada. Eu, o Rui e o mar ali ao pé. É romântico. Demasiado romântico. Ele é meu amigo. Gosto dele mas não quero que esta relação evolua para outro caminho. Tenho que acabar com isto antes que evolua. Mas quando eu ia abrir a boca ele beijou-me.