segunda-feira, junho 20, 2005

A homilia

Aviso: Eu não sou feminista. As mulheres não são mais que os homens. Apenas também não são menos.

Apesar da minha relação com Deus e com a Igreja estar a sofrer uma grave crise conjugal (estamos em fase das discussões, aquela que vem antes da insustentabilidade da relação e da inevitável separação, mas na presença de público ainda sorrio e finjo que nada se passa), acho de um extremo mau gosto ir a uma festa de um casamento e não comparecer na cerimónia religiosa. Por isso lá estava eu às 12h30 no Convento da Rainha Santa Isabel em Coimbra.
Tolero as liturgias pela contextualização histórica de quando foram escritas e até admiro o facto de serem actuais em bastantes aspectos, mas por ter de estar muito tempo apoiada nuns vertiginosos saltos agulha os pés começaram a doer e eu fiquei amuada e rabugenta, sem grande tolerância para os disparates que o prior foi dizendo durante a homilia.
Primeiro, referindo-se ao casal, saí-se com “o homem e a sua auxiliar”. Aqui revolto-me. Nenhum contexto justifica esta expressão. Ele que vá chamar auxiliar à mãe dele! E daí começo a achar que a culpa é mesmo das mães. Agora é a televisão, mas antigamente quem educava os putos eram as mães. Hei-de escrever um post só a falar deste tema.
Volto a ouvi-lo e tento controlar o meu espírito critico até ao momento em que ele conta a história de uma senhora que lhe veio dizer que o marido exemplar há 30 anos teve uma aventura e que ela o perdoa e que o ama e que o aceita. Até aí tudo bem, não fosse a entoação do discurso desresponsabilizar a atitude do marido por este ser homem e enaltecer a mulher pelo sacrifício em prol do sacramento sagrado do matrimónio, acrescentando que “hoje em dia” já não há atitudes destas. Claro que não há atitudes destas! Com o aumento da igualdade de direitos entre géneros a manutenção de uma relação não advém da submissão da mulher e os sacrifícios que têm que vir das duas partes. Está-me a querer parecer que “hoje em dia” deixando de existir a inevitabilidade da submissão se assumem mais responsabilidades e as relações são mais conscientes, manifestando-se bem mais o amor. Houve alguém, por acaso até foi este prior, que disse que Deus é amor.
Eu gosto de Deus. Fascina-me a sensação de segurança e esperança que Ele transmite às pessoas. Um dos problemas é que a Igreja Católica parece achar que a “igualdade entre os homens” de que Ele fala se dirige ao género masculino e não há espécie humana, excluindo os gays que não se incluem no género masculino pois são simplesmente aberrações demoníacas que vêm destabilizar a paz dos justos crentes que seguem à risca a sua interpretação do que denominam de lei de Cristo. E este homem e muitos homens como este falam para populações que sabem menos do que eles e do que eu, populações que acreditam que Deus fala através deles e que por isso os ouvem e acreditam no que eles dizem.


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