domingo, junho 26, 2005

Idiota aqui, ali e acolá...

- Bom dia alegria! – repetiu o Bernardo quando me viu entrar descalça e desgrenhada sobre o pavimento gelado da cozinha.
- Oh amor que horas são?
- Tarde! Muito tarde! Queres lanchar?
- Não, por favor, só quero ir para minha casa, enroscar-me sobre o sofá da sala e beber chá de menta até ao fim do dia. Estou tão cansada.

E estava. Sentia a cabeça latejar sob a luz forte do fim de tarde. Sentia o corpo implorar por descanso e sentia sobretudo uma total alienação quanto ao todo que havia provocado tal estado de decadência. Por isso, enquanto puxava de um copo, olhei para ele com curiosidade e perguntei:

- Importaste de me explicar o que é que aconteceu na noite passada? É que eu recuso-me a acreditar nesta miscelânea de memorias…

Eles sorriu, atirou a franja para o lado, chegou-se mais perto de mim e disse:
- Foi muito mau…Bem… A Beatriz (a tal) encontrou-nos no bar na marginal, sentou-se numa cadeira ao meu lado e perguntou descarada se tu também me roubavas os namorados! O Rodrigo da administração, aquele que supostamente se andava a atirar a ti, arregalou os olhos, bebeu um trago do seu straight e levantou-se de um pulo dizendo que ia encontrar uns amigos quaisquer. Tu passaste-te da cabeça, correste atrás dele, ficaste na porta do bar a gritar-lhe enquanto a Beatriz me massacrou em dois minutos de paleio tipo: “Oh Bernardinho, ainda não saíste do armário? Desculpa eu não sabia! J-U-R-O que não sabia! E aquele gajo, coitado, ficou tão assustado com as tuas tendências…”. Depois ela desapareceu com aquela horrenda pochette roxa debaixo do braço e tu voltaste para a bebedeira desgovernada!

- Podia ter sido pior! – disse eu com os olhos pregados no copo de água – Podia ter tido alguma coisa com aquele preconceituoso de merda!



Patric Shaw

quinta-feira, junho 23, 2005

Contra a homofobia

''À homofobia que nos remete para a vergonha do armário respondemos hoje, mais uma vez, e sempre, com o orgulho de a recusarmos. Somos lésbicas, somos gays, somos bissexuais, somos transgénero, somos cidadãs e cidadãos da República Portuguesa e a nossa Constituição já diz não à discriminação. Portugal é, neste momento, o único país da Europa cuja Constituição proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual – é tempo de ''Cumprir a Constituição'' e de dizer ''Homofobia não!''. ''
Este é um excerto do manifesto Cumprir a Constituição:Homofobia Não! que pode ser consultado na integra aqui.


e


segunda-feira, junho 20, 2005

A homilia

Aviso: Eu não sou feminista. As mulheres não são mais que os homens. Apenas também não são menos.

Apesar da minha relação com Deus e com a Igreja estar a sofrer uma grave crise conjugal (estamos em fase das discussões, aquela que vem antes da insustentabilidade da relação e da inevitável separação, mas na presença de público ainda sorrio e finjo que nada se passa), acho de um extremo mau gosto ir a uma festa de um casamento e não comparecer na cerimónia religiosa. Por isso lá estava eu às 12h30 no Convento da Rainha Santa Isabel em Coimbra.
Tolero as liturgias pela contextualização histórica de quando foram escritas e até admiro o facto de serem actuais em bastantes aspectos, mas por ter de estar muito tempo apoiada nuns vertiginosos saltos agulha os pés começaram a doer e eu fiquei amuada e rabugenta, sem grande tolerância para os disparates que o prior foi dizendo durante a homilia.
Primeiro, referindo-se ao casal, saí-se com “o homem e a sua auxiliar”. Aqui revolto-me. Nenhum contexto justifica esta expressão. Ele que vá chamar auxiliar à mãe dele! E daí começo a achar que a culpa é mesmo das mães. Agora é a televisão, mas antigamente quem educava os putos eram as mães. Hei-de escrever um post só a falar deste tema.
Volto a ouvi-lo e tento controlar o meu espírito critico até ao momento em que ele conta a história de uma senhora que lhe veio dizer que o marido exemplar há 30 anos teve uma aventura e que ela o perdoa e que o ama e que o aceita. Até aí tudo bem, não fosse a entoação do discurso desresponsabilizar a atitude do marido por este ser homem e enaltecer a mulher pelo sacrifício em prol do sacramento sagrado do matrimónio, acrescentando que “hoje em dia” já não há atitudes destas. Claro que não há atitudes destas! Com o aumento da igualdade de direitos entre géneros a manutenção de uma relação não advém da submissão da mulher e os sacrifícios que têm que vir das duas partes. Está-me a querer parecer que “hoje em dia” deixando de existir a inevitabilidade da submissão se assumem mais responsabilidades e as relações são mais conscientes, manifestando-se bem mais o amor. Houve alguém, por acaso até foi este prior, que disse que Deus é amor.
Eu gosto de Deus. Fascina-me a sensação de segurança e esperança que Ele transmite às pessoas. Um dos problemas é que a Igreja Católica parece achar que a “igualdade entre os homens” de que Ele fala se dirige ao género masculino e não há espécie humana, excluindo os gays que não se incluem no género masculino pois são simplesmente aberrações demoníacas que vêm destabilizar a paz dos justos crentes que seguem à risca a sua interpretação do que denominam de lei de Cristo. E este homem e muitos homens como este falam para populações que sabem menos do que eles e do que eu, populações que acreditam que Deus fala através deles e que por isso os ouvem e acreditam no que eles dizem.


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sexta-feira, junho 17, 2005

Dois anos de Romances de Faca e Alguidar


Party!!!

quarta-feira, junho 08, 2005

O mercado

- Tenho uma bolha na articulação interfalângica do quarto dedo do pé esquerdo, logo abaixo da fitinha da sandália – digo.
- Tu estás é bêbeda! – Refila a Bo. O tom de voz é demasiado alto e denuncia que também ela bebeu de mais.
- Bêbados estão vocês todos! É a única explicação para me terem trazido aqui! – Atira-nos o Bernardo. - Que decadência.
Esta noite foi de festa, o Rui fez anos.

O Rui é jornalista. Nós os dois temos uma história paralela. Em público agimos como se nada se passasse. A Bo sabe e presumo que o Bernardo, se não sabe, desconfia.

O Bernardo é economista. É giro, atlético, educado, informado, fica bem de fato e é gay. Está sempre atrasado, é cusco, adora falar mal, cobiça os mesmos gajos que eu, ensina-me muito acerca de música e tecnologia (um vício comum a todos os meus amigos), é um puritano e um romântico que se magoa facilmente. Adoro-o.

No fim de jantar estivemos num bar, depois a uma discoteca e agora o aniversariante escolheu o mercado para ir tomar o pequeno-almoço. Diz que é uma tradição que tem desde a faculdade.
Eu gostei da ideia.
Com os olhos escondidos por detrás dos óculos escuros posso observar o ambiente em que estou, bastante diferente daquele que acabamos de abandonar. As pessoas da noite estão maquilhadas, os corpos são bonitos, são atléticos ou magros. Tudo brilha.
O mercado tem uma beleza diferente: os sons no ar, tem muita luz, tem as cores dos vegetais e frutas, tem pessoas de todas as idades, os rostos que mostram uma vida, há sotaques rurais a apregoar, há as imagens da Rainha Santa e da Senhora de Fátima a enfeitar as bancas e os talhos. No ar cheira a peixe, a pão, a frutas e a desinfectantes.
- Já viram a quantidade de pessoas jovens que estão aqui? É anacrónico! Nunca ouviram falar de supermercados?
Não era só o Bernardo que olhava de lado para as pessoas à nossa volta. As pessoas à nossa volta também olhavam de lado para nós. Estávamos desenquadrados com a nossa roupa da noite e a aura de cheiro a tabaco.
-Vamos comer o quê?
- Morangos! Compramos dois quilos, pedimos à senhora para os lavar e vamos para a praia.
- Sim, vamos sair daqui!
- Eu quero cerejas.

A praia era a da Figueira da Foz. A manhã estava nublada e um vento gelado com cheiro a maresia levou-os a não quererem sair do carro. Eu queria molhar os pés. A água salgada tem poderes curativos, ou pelos menos o iodo destas praias faz bem à sinusite. Meti na cabeça que tinha que molhar a bolha do meu pé na água.
- Estas a ver ali aquele fumo? É a Socursel, ou assim uma coisa. Fabricas de pasta de papel. Ainda achas que faz bem?
- Eu quero ir. Não querem vou sozinha. - Salto fora do carro e atiro as sandálias lá para dentro. O chão está frio.
- Espera! Não vais sozinha, eu vou contigo. – Disse o Rui, que tinha estado bastante calado.
- Isso é tão perigoso. Não se comam na praia! – Atira a Bo, antes dele fechar a porta do carro. Agora o Bernardo já sabe.Descemos as escadas e atravessámos o deserto de areia que nos afastava do mar. Estava bravo, o mar, e a água estava gelada. Eu, o Rui e o mar ali ao pé. É romântico. Demasiado romântico. Ele é meu amigo. Gosto dele mas não quero que esta relação evolua para outro caminho. Tenho que acabar com isto antes que evolua. Mas quando eu ia abrir a boca ele beijou-me.

quinta-feira, junho 02, 2005

A Beatriz Cunha entrou de rompante pelo meu apartamento, atirou a mala sobre o sofá, sentou-se na poltrona junto ao janelão da varanda e perguntou:
- Queres um cigarro?
- Não…
- Queres uma pastilha de menta?
- Não querida, quero antes saber o que estás tu aqui a fazer?
- Olha lá sua cabra porque é que andas a comer o meu gajo?
Estarreci de terror, olhei-a com visível surpresa, estiquei um pote que estava ali prostrado sobre a mesa de centro e perguntei:
- Queres um rebuçado?
Ela olhou-me com uns olhos hediondos, levantou-se de um pulo, estacou o corpo (em poses desengonçadas) na minha frente e atirou uma rajada de palavrões obscenos que nem me atrevo a transcrever. Depois, pegou na mala de cor de beringela, tirou de lá de dentro um porta-moedas minúsculo, mostrou-me uma fotografia do tipo que causara toda aquela cena e anunciou desesperada:
- Nós íamos casar! Nós íamos casar! E agora ele chega a casa com aquela pasta atafulhada de trabalho, diz que não tem mais paciência para mim e…que só te vê a TI caralho, a TI, como escape para os dias caóticos.
- Oh Bia eu não sabia que vocês estavam noivos…quem é que fica noivo na nossa idade, tu também…
- Tu és uma puta de merda!
- E tu és uma cornuda idiota, agora sai do meu apartamento antes que te atire com a merda do pote ao focinho!!!! E sim ele fode bem…e sim eu até gosto dele…e ah! Claro! Ele também me disse que estava farto de ti e dos teus cigarros light! Desaparece!


Saí até à varanda, olhei as nuvens carregadas de tempestades e tragédias e murmurei: “Oh God, make me understand!”

Christopher Baker