quarta-feira, abril 27, 2005

rigor mortis

- Pensa bem, e responde-me tu a essa pergunta.
Normalmente há a ideia que miúdas que tiveram pais ausentes tendem a procurar homens mais velhos para anular a carência da afectividade paterna. Apesar das discussões e de quase termos cortado relações durante a minha adolescência, o meu pai não esteve ausente na minha infância, pelo que creio que a minha tendência para me apaixonar por homens mais velhos se deve à minha curiosidade e sede de conhecimentos porque procuro o conhecimento por eles adquirido ao longo do tempo. “Apaixonas-te por cabeças” resumiu um dia uma dessas cabeças.
- Pensa.
Olho-o nos olhos cor de mel e nas suas pestanas compridas. Se não o conhecesse diria que usa rímel. A minha pergunta foi uma tentativa de o distrair da sua divagação acerca de organização mundial de comercio e dos recentes problemas com a China. “Desculpa a interrupção, mas queria fazer-te uma pergunta que não tem nada a ver. O que é para ti uma má queca?”
Ele é dos que afirma ter uma mente completamente aberta, que tenta não censurar o seu pensamento, permitindo-se debater as suas próprias opiniões e pôr em causa todo o tipo de dogmas sociais, morais, éticos, políticos, religiosos. Acho que todos gostamos de ser ouvidos e que prestem atenção ao que dizemos, por isso deixo que me explique coisas que já sei, por vezes apercebo-me que afinal não sabia . Percebo que sabe que sei, mas diverte-o a minha futilidade aparente, a adora ensinar-me e mostrar-me coisas.
- Quando ela é pouco dada a experiências?
Fez uma expressão de quem não concorda.
- Já ouviste falar em rigor mortis?
- Já, depois de morrer o corpo fica rígido.
- Muito bem. Quando andava na faculdade tive relações com uma rapariga que estava estática. Fez-me sentir que me estava a masturbar nela, e passou-me toda a tesão. Essa foi uma muito má queca. Isso das experiências, - fez aquela expressão de quem não concorda de novo - tu sabes bem que há homens pouco dados a experiências. No fundo somos todos humanos que sentem não só sensações mas também sentimentos. É frustrante quando o parceiro não demonstra estar a gostar de estar connosco.
O que ele tinha dito não era novidade, estava implícito, mas ele tinha-o dito, enquanto eu o tinha sentido ou pressentido.
- Vocês, - digo, - gostam que nós tomemos iniciativas sem dominar completamente.
Chego-me a ele e beijo-o, ao que ele me responde começando a tirar-me a roupa. Outra coisa que gosto nos gajos mais velhos, penso, é que sabem bem o que querem.



Edgar Keats