sexta-feira, abril 29, 2005

Dia Mundial da Dança

quarta-feira, abril 27, 2005

rigor mortis

- Pensa bem, e responde-me tu a essa pergunta.
Normalmente há a ideia que miúdas que tiveram pais ausentes tendem a procurar homens mais velhos para anular a carência da afectividade paterna. Apesar das discussões e de quase termos cortado relações durante a minha adolescência, o meu pai não esteve ausente na minha infância, pelo que creio que a minha tendência para me apaixonar por homens mais velhos se deve à minha curiosidade e sede de conhecimentos porque procuro o conhecimento por eles adquirido ao longo do tempo. “Apaixonas-te por cabeças” resumiu um dia uma dessas cabeças.
- Pensa.
Olho-o nos olhos cor de mel e nas suas pestanas compridas. Se não o conhecesse diria que usa rímel. A minha pergunta foi uma tentativa de o distrair da sua divagação acerca de organização mundial de comercio e dos recentes problemas com a China. “Desculpa a interrupção, mas queria fazer-te uma pergunta que não tem nada a ver. O que é para ti uma má queca?”
Ele é dos que afirma ter uma mente completamente aberta, que tenta não censurar o seu pensamento, permitindo-se debater as suas próprias opiniões e pôr em causa todo o tipo de dogmas sociais, morais, éticos, políticos, religiosos. Acho que todos gostamos de ser ouvidos e que prestem atenção ao que dizemos, por isso deixo que me explique coisas que já sei, por vezes apercebo-me que afinal não sabia . Percebo que sabe que sei, mas diverte-o a minha futilidade aparente, a adora ensinar-me e mostrar-me coisas.
- Quando ela é pouco dada a experiências?
Fez uma expressão de quem não concorda.
- Já ouviste falar em rigor mortis?
- Já, depois de morrer o corpo fica rígido.
- Muito bem. Quando andava na faculdade tive relações com uma rapariga que estava estática. Fez-me sentir que me estava a masturbar nela, e passou-me toda a tesão. Essa foi uma muito má queca. Isso das experiências, - fez aquela expressão de quem não concorda de novo - tu sabes bem que há homens pouco dados a experiências. No fundo somos todos humanos que sentem não só sensações mas também sentimentos. É frustrante quando o parceiro não demonstra estar a gostar de estar connosco.
O que ele tinha dito não era novidade, estava implícito, mas ele tinha-o dito, enquanto eu o tinha sentido ou pressentido.
- Vocês, - digo, - gostam que nós tomemos iniciativas sem dominar completamente.
Chego-me a ele e beijo-o, ao que ele me responde começando a tirar-me a roupa. Outra coisa que gosto nos gajos mais velhos, penso, é que sabem bem o que querem.



Edgar Keats

segunda-feira, abril 18, 2005

Um dia no Porto, sempre no Porto…

É esta paixão desmedida pela cidade que me impele a visitá-la periodicamente, sem olhar a gastos cansaço ou compromissos. Portanto, e por causa das conversas que ficaram por esclarecer, pelo sítios que ficaram por visitar, neste fim-de-semana acabado resolvi voltar ao Porto.
Encontrei o Miguel e o Tá na esplanada junto ás aguas frias do mar do norte, saudei-os com um sonoro “Olá” e sentei-me para um agradável chá e uma conversa que se havia, naturalmente, de tornar bastante longa.
Falámos das minhas relações movediças, falámos do seu romances estável e duradouro, falámos na depressão da Joana Vasco, falámos inclusive dos tempos que correm e das notícias que rolam nos tablóides, onde talvez a mais popular de todas seja a escolha do Vaticano sobre o novo Papa.
Esse Papa que terá de arcar nas costas a evolução das mentalidades e a desmistificação de uma sexualidade cada vez mais libertina, cada vez mais perigosa, onde um preservativo não é contra-natura, mas sim a favor de uma humanidade sã…Sim, porque se for necessário eu volto a bater os punhos na mesa (ambos), volto a sublinhar as lutas que a Mulher tem ganho ao longo destes anos perante o estado e a sociedade, mas que continuam irreconhecíveis aos olhos de uma instituição conservadora e fechada no seu machismo intolerante, quer para com esta emancipação notada de cada mulher, quer para com a relação “vergonhosa” do Miguel e do Tá, que cometeram apenas o sacrilégio de se amarem mutuamente e de partilharem uma vida comum há mais de quatro anos. Eles, homossexuais assumidos perante colegas e família, afirmam-se como católicos baptizados e crentes, mas não deixam de sentir dentro de si uma divisão perante esta religião que querem professar, mas onde nem sequer são reconhecidos…violando portanto o princípio fundamental do evangelho: “todo o homem é filho de Deus”.

Oh God, make me understand!

sexta-feira, abril 15, 2005

Pequenos gestos

Ofegantes, os corações a baterem desenfreados no peito, exaustos, em paz…
Deita-se a meu lado de costas voltadas para mim e eu volto-me para ele abraçando-o por trás.

Depois de um orgasmo, um dia tive a sensação de querer dar uma patada no gajo com quem estava para o expulsar da cama e ficar sozinha. Mal o conhecia, tive sexo com ele por uma razão puramente egoísta: procurar prazer fácil, sem complicações amorosas. Depois do orgasmo não vi sentido em estarmos ali juntos.

Será que ele estaria a sentir o mesmo? Parecia que não era suposto o meu braço estar ali sobre o corpo indiferente dele. Gosto dele, mas não vou suplicar atenção… Vou deixa-lo em paz. Amigos na mesma. E tiro o meu braço, voltando-me também de costas para ele e fecho os olhos. Ficamos assim pouco ou muito tempo, não sei dizer. Sei apenas que os pequenos gestos podem, eles sim, dizer muito. Ele também o deve saber, porque me veio puxar o braço, no seu modo firme e meigo de sempre, para de novo abraçar do seu corpo.

No princípio de uma relação, mesmo que se conheça bem o outro, existem sempre inseguranças. Mas tenho que deixar de ser tão psicótica…


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quarta-feira, abril 13, 2005

habemus blog

Não escrevo para este blog há semanas, desculpem-me os que porventura me lêem. Aproveitei o despojamento forçado deste vicio que é escrever para refectir acerca do que escrevo.
“liberté, égalité, fraternité” foi o slogan da revolução francesa no século XVIII, mas hoje ainda acontecem atrocidades como a mutilação sexual de meninas em algumas comunidades islâmicas e outras não-islâmicas do norte da África e Oriente Médio. Só durante o século XX é que, na Europa, as mulheres puderam votar, puderam trabalhar e serem independentes do pai ou do marido (aka donos?) ou simplesmente puderem ser consideradas vítimas em casos de violação.
Um sistema tão prepotente em relação às mulheres com raízes milenares não se altera facilmente. Não era suposto uma mulher ter prazer, era suposto servir. Como posso eu exigir que um comportamento libertino feminino seja aceite? Não exijo. Estou saturada de abordar a temática da aceitação do meu estilo de vida pela sociedade. Acabou. Que se fodam os valores ocos da população geral!

domingo, abril 10, 2005

Essa Casa que dá Música

Acalmar os nervos dos atafulhados dias em trabalho tem sido uma nova rotina diária. Ás vezes recosto-me no sofá da sala e passo os olhos nas gordas dos tablóides, outras vezes pura e simplesmente caio na cama mais cedo que o habitual e deixo que o sono me cure as rugas de cansaço. No entanto este fim-de-semana a historia foi outra, farta de filas de almoço, filas de trânsito, filas na fotocopiadora, filas de transportes… agarrei no carro e meti-me auto-estrada adentro em direcção ao Porto da evasão!
Na avenida floriam as ramagens dos parques citadinos, nas ruas corriam pessoas com amplas camisolas de algodão, nos cafés os refrigerantes abundavam em cada mesa. E foi aí, exactamente naquele café atulhado da ruela paralela à Rua de Santa Catarina, que presenciei o trocar de palavras, entre dois jovens reformados e uma empregada de mesa sobre o evento do fim-de-semana: a Casa da Musica!
Para os portuenses, sempre preocupados em exaltar todas virtudes das suas raízes, aparece agora um novo orgulho municipal, a que muitos já chamaram a cura para a depressão sofrida com os inúmeros azares do FCP. Um edifício esplendoroso e controverso o suficiente para ser discutido durante semanas a fio, em tudo o quanto é mesa ou paragem de autocarro, pois a sua grandiosidade e os seus ângulos bizarros são tão salientes que à passagem na popular rotunda da Boavista, ninguém lhe fica indiferente. Por isso me interessou aquele vulgar cavaquear, queria saber a opinião de cada um…
Pois bem, fiquei a sabe-la imediatamente, quando um deles ousou dizer que a Casa da Musica “é tão bonita tão bonita, que até é melhor que aquele aquário que fizeram na Expo!”, em resposta eu soltei uma gargalhada que se deve ter ouvido na mesa e talvez por isso um dos senhores olhou-me e perguntou: “E a menina o que acha?” eu disse sorridente: “Acho que o arquitecto, o senhor Koolhaas, construiu uma bela obra!” e a isto ele respondeu arrogante: “Esse não construí nada, quem construiu aquilo fôramos nós, os portuenses!”. Mais palavras para quê?