sexta-feira, março 11, 2005

A camisola


foto de David Jay

Conseguia sentir-lhe o cheiro ainda dentro do saco de papel branco, que tem o logótipo de uma marca de lingerie. É o seu cheiro, emprestei-lhe a camisola e devolveu-ma carregada com o seu perfume. Tirei-a de dentro do saco e levei-a ao nariz. Inspirei-a até encher os pulmões. Como descrevê-lo? Especiarias? Não sei especificar… É simplesmente o cheiro Dela, distinguí-lo-ia se o procurasse numa perfumaria se não lhe conhecesse a marca.
O cheiro hipnotiza-me, tiro a string com que dormi e visto a camisola.
Ébria no meu transe, cada movimento da camisola é o movimento Dela a tocar-me, a sua pele tacteando cada centímetro da minha pele, sinto-a como se Ela me abraçasse, os seus braços rodeando-me, o seu corpo de encontro ao meu. Cruzo os braços e abraço-me, roço com força o tecido contra mim. No auge no transe toco-me e na minha ilusão os meus dedos são os seus dedos.
Ainda com o corpo a pulsar da overdose de prazer, volto à realidade e choro a minha sina de amores não correspondidos.