segunda-feira, março 28, 2005

Vagueávamos pela cidade, tão adormecida, quando sentimos o som dos gatos vadios no beco. Um beco vulgar emperrado de lixeira nauseabunda, onde não só se escondiam os bichos como também a silhueta do meu corpo cada vez mais embrenhada no âmago da insensatez. Prosseguimos adentro daquele lugar inóspito apenas com o intuito de tocarmos os nossos corpos e o nosso bafo na quietude do escuro. “Não tens medo?” “Não…” e dizendo isto espremi-te a nuca sobre o tijolo descarnado na parede onde te sibilei toda a torrente de palavras que me inspiras ao desejo do meu corpo encontrar o teu…Não te amo, mas anseio-te.


Shiver

quarta-feira, março 23, 2005

Moments

A lua pairava no céu como se de um enfant terrible se tratasse. Não chegava a vista privilegiada da mesma para melhor nos observar ainda enviou um aliado de peso para observar também... O luar! Este, repousava calmamente nas águas frias e límpidas da barragem sendo apenas denunciado pela enorme claridade que emitia.
Fora da casa, situada em local privilegiado mas de difícil acesso, o ar era frio apesar do céu limpo... como se de uma noite de verão lhe retirássemos alguns graus de temperatura.
O silêncio era apenas quebrado pelos comuns sons da mata, e pelas águas transbordantes da imensa lagoa fronteiriça.
Na casa, reinava o calor. O calor proveniente da lareira acesa, das velas do jantar, dos pratos ainda quentes do carpaccio, do ar seco e áspero do vinho tinto.
Junto a janela, num sofá aveludado de tom escarlate, protegíamo-nos do frio com um cobertor sedoso e macio de tons pérola e com o calor corporal de cada um.
A noite honrava aquele momento com o mais cintilante dos céus. Todas as constelações se uniram para nos prestar homenagem.
Naquele momento nós eramos o cerne universal.




Texto e imagem por Taboaamassa (Peter Pan adorado e adorável)

sábado, março 19, 2005

Depois de uma semana atafulhada, peguei no saco das ínfimas tralhas que colecciono e acomodei-me, acompanhada do meu jazz portátil, no canto bafiento do comboio regional que me iria levar ate à costa.

Descobri o som extenuante do silêncio vazio na praia, abracei-o como cura para o caos que me invadiu ao longo dos últimos dias, e larguei-me sobre o areal, tentando desfrutar do prazer que todo aquele emaranhado de maresia me provocava sobre as magoas…tentando expandir o egoísmo e o deleite de estar finalmente sozinha sobre a vastidão do paraíso.


“Paralisem a perfeição!”

Lars Botten

sexta-feira, março 11, 2005

A camisola


foto de David Jay

Conseguia sentir-lhe o cheiro ainda dentro do saco de papel branco, que tem o logótipo de uma marca de lingerie. É o seu cheiro, emprestei-lhe a camisola e devolveu-ma carregada com o seu perfume. Tirei-a de dentro do saco e levei-a ao nariz. Inspirei-a até encher os pulmões. Como descrevê-lo? Especiarias? Não sei especificar… É simplesmente o cheiro Dela, distinguí-lo-ia se o procurasse numa perfumaria se não lhe conhecesse a marca.
O cheiro hipnotiza-me, tiro a string com que dormi e visto a camisola.
Ébria no meu transe, cada movimento da camisola é o movimento Dela a tocar-me, a sua pele tacteando cada centímetro da minha pele, sinto-a como se Ela me abraçasse, os seus braços rodeando-me, o seu corpo de encontro ao meu. Cruzo os braços e abraço-me, roço com força o tecido contra mim. No auge no transe toco-me e na minha ilusão os meus dedos são os seus dedos.
Ainda com o corpo a pulsar da overdose de prazer, volto à realidade e choro a minha sina de amores não correspondidos.

terça-feira, março 08, 2005

Dia Internacional da Mulher



"My mother died so young and she never expressed herself..."

Fotografia de Malena Mazza, citação de Joyce Tenneson

sábado, março 05, 2005

Wordless atitud, Cosmic love

18 Horas 21 minutos, figuram na task bar do notebook. Queria eu que as horas passassem tão rápido como a paisagem que rodeia a trilha do Alfa-Pendular.
Depois de um dia em reuniões, cálculos, projectos, discussões vai saber bem um banho de imersão acompanhado por um copo de um bom champanhe.
Ao fechar a lid do notebook deparo-me com ela... Cabelo solto e esguio, ar determinado e dinâmico, sensualidade, sex appeal, look nerd e ar rebelde tudo num só.
Ao passar por mim olha-me nos olhos como se me estivesse a manipular mentalmente. Conquista-me pela segunda vez em segundos, o perfume dela desperta os meus mais ávidos e selvagens desejos.
Levanto-me e sigo-a, ela olha para trás, esboça um sorriso e continua esvoaçante e charmosa pelo vagão até entrar no wc.
Ao chegar diante do wc bato à porta... ela puxa-me para dentro, beija-me como se fosse a ultima coisa que ela fosse fazer na vida e rapidamente me despe... Levanta a saia, desvia a roupa interior e sem dizer uma palavra faz com que eu a possua... O wc do vagão é pequeno, mas com imaginação tudo se consegue. O trepidar natural do movimento do Alfa não ajuda nem prejudica, mas o som permite ocultar algumas ousadias...
Entretanto alguém bate na porta, nada nos faria quebrar o vibe intenso em que estávamos. "Ocupadoo" - disse eu. E não menti!
Ela gozou, eu gozei...
Enquanto eu ainda me recompunha do sucedido já ela se refugiava nos cosméticos.
Vira-se para mim, dá-me um beijo na face direita e acaricia-me a esquerda com a mão como que dizendo... Obrigada, gostei!
Abre a porta e eis que lhe oiço a voz aquando da sua intervenção para com o utente que aguardava a sua vez de satisfazer as suas necessidades fisiológicas: "Terminamos. É todo seu!
A cara de estupefacção do indivíduo era tanta ou mais que a minha.
De volta à minha poltrona da primeira classe volto a pensar no meu banho, no meu champanhe e como foi bom ter sido usado...
Texto de Taboaamassa (um apetitoso Peter Pan)

quarta-feira, março 02, 2005

Grandes Dias Pequenos "apontamentos"

Havia sempre imensa gente a barafustar naquela sala cubículo. Mas ainda hoje, passados anos sobre tão belos tempos, sou capaz de ouvir a professora Maria da Graça debitando as características primárias da arte jornalística, sendo uma dessas características (não lhe vou conferir o carácter de principal, seria injusto) a imparcialidade do redactor para com o tema exposto.
No entanto e após anos e anos de leituras compulsivas sobre revistas e jornais mais ou menos mediáticos, cá vou eu, mais uma vez, esbarrar com um abuso por parte de um tal Miguel Calado Lopes, senhor respeitado com direito a opiniões explicitas nas primeiras paginas da Única, que não deixa de chocar pelo seu juízo, em tom de sátira humorística, sobre um irrisório tema tratado por uma revista de nome JaLOuSe. Admito que o exemplo explicitado é deveras descabido e até admito que o doutor tem algumas razoes para rir e zombar da entrevista comentada, mas daí reduzi-la a pura futilidade!?!
Por isso não deixo de considerar esta nao-imparcialidade mera critica gratuita, sem qualquer autoridade superior por parte daquele que a redigiu, pois este, se queria lá conferir um je ne sais quoi de cultura sur la page, devia pelo menos, não ter tido a ousadia infeliz de ocupar um quarto do seu artigo com a bagatela descrita.