domingo, novembro 07, 2004

"...ordem devassa das coisas..."

Debruçada sobre a iluminada avenida apinhada de gentes e euforias…senti-o percorrer de língua toda a linha da minha perna…Senti-o agarrar violentamente o meu joelho e senti-me debruçar sobre o precipício (que tanto odeio) debaixo da nossa volúpia…
Expeli um gemido suave e arrastado quando me subiu ainda mais o vestido, expeli um gritinho incontrolado quando me tocou as vergonhas, disse-lhe:” Para” quando desejei que continuasse…

No edifício rosa decrépito da nossa frente vi num vislumbre a cara fantasmagórica e voyer de alguém que com certeza nos observava. Encarei-o com raiva e disse meia dúzia de ordinarices que se perderiam segundos mais tarde entre a distância que nos separava e o vento que se fazia sentir. Talvez por não ter recebido a mensagem ofensiva, esse alguém ali permaneceu…talvez por estar demasiado excitada esse alguém não me incomodou…

No minuto seguinte o meu corpo encontrava-se esparramado contra o friso da porta do Hotel, desfrutando do prazer mais primordial e efervescente que alguém pode sentir em cópula tão básica e feroz…mas que fazer? Que fazer para reprimir os nossos instintos bravios? Que fazer para esconder os nossos desejos voyer? Que fazer para mudar a natural ordem devassa e promíscua da nossa existência?

Meu deus, hoje sinto-me tão puta!



Foto: Edgar Keats