domingo, novembro 21, 2004

Confundo-me nas paredes húmidas e frias da minha casa silenciosa, pressinto cada seu respirar e pergunto-me a mim mesma, porque raio o deixei entrar…ou ainda, porque insisto partilhar estes estranhos instantes convosco…

“Ora bolas Tomás, que fazes tu aqui?” pergunto…Ele responde qualquer coisa como: “Teus cabelos loiros são…”
Raios o partam…ainda me acorda os vizinhos, os putos dos vizinhos, a velha esquizofrénica do prédio ou lado…ou pior, o cão do quarto andar…aí sim era uma catástrofe; ser responsável e responsabilizada pelo mau dormir de todo o bloco de apartamentos na próxima reunião de condomínio não me parece algo (sequer) suportável!!!
Pelo que me apresso a vestir um roupão turco e a descer os lances de escadas até ao seu encontro…ver se acabo com a maldita da cantoria teatral…que eu própria já não admito!
Dou com ele no rebato, espojado no meio do poeirento tapete, cantando o nosso fado coimbrão, com meia dúzia de camisas dobradas a tiracolo e uma arrogância incrível que se revela a quando da profusão destas palavras: “Hoje durmo em tua casa!”. Pois podem imaginar o meu estado de choque, afinal, eu, a madre Teresa (Calcutáriana), no meio de uma tremenda gripe de caixão à cova, vejo-me de um momento para o outro impingida com um puto-grande, que se diz no direito de usar a minha modesta casinha, como reles motel.
No entanto, sei que não posso recusar…sei que não o posso negar e acabo sorrindo num esgar grosseiro enquanto balbucio: “Claro! Estás à vontade”…No intimo apetece-me esbofeteá-lo, denegri-lo ao pontapé ou simplesmente afoga-lo num alguidar de lixívia pura! Mas como posso recusar estadia ao meu irmãozinho?

Ora bolas Tomás, vê se me largas…