terça-feira, novembro 30, 2004

N acredito...

Expeli a minha raiva e a minha mágoa em choro compulsivo de paixão traída.
Quis apagar-te da minha vida, ignorar o lugar que já ocupavas…quis limpar-te do meu mundo e retroceder em tudo o que dissera entre sorrisos e esperanças aos que me eram mais próximos…e a ti.

Olhei a mesa-de-cabeceira, dirigi-me a ela, peguei o livro verdusco que lá jazia, retirei o meu lápis de carvão do seu interior e atirei o primeiro sobre a pilha de informação que guardo no cesto do fundo…

Certas coisas deixaram de ter valor!

Mas não quero que “certas palavras” fiquem sem ser ditas…Tenho plena consciência, agora que te perdi, que te amava…ou amo…não sei…mas…suponho que agora nada disso interessa…



segunda-feira, novembro 29, 2004

a m o - t e

- Posso-te pedir uma coisa?
- Claro, tu mandas em mim… - e envereda por um discurso enorme típico dele, que usualmente escuto embevecida. Porém, não o estou a ouvir. Estou com receio da reacção dele e espero que se cale adoptando uma postura de mãe compreensiva e atenta.
- Dás-me a mão? Só agora, um bocado… - Digo séria, e baixo os olhos. Não sou pessoa de andar de mãos dadas, ele também não o é, temos milhares de motivos para não o fazer aqui nem agora e por isso é que é giro, é que é especial: nós (nós!) de mãos dadas na rua!
Ele acede ao meu pedido e a minha mão prende-se à dele como uma âncora, tal qual nós nos prendemos um ao outro…

foto de Barry Sutton

sexta-feira, novembro 26, 2004

FlorBela

Florbela, flor delicada e bela que nasceu de um instante lascivo e açucarado, entre dois corpos famintos de glícidos e glúteos. Dois que se misturaram e se confundiram, por livre vontade, anulando cada qual sua emoção, afim de atingirem um todo consensual de partilha e insanidade comportamental.
Florbela, flor delicada e bela que se deu em mim, após a confrontação com tão perfeito e apaziguador sentimento.

Por isto que me provocas, por isto a que me remetes, por isto te peço que voltes.






segunda-feira, novembro 22, 2004

No TAGV

Á medida que os nossos encontros para tomar um cházito e ter conversas interessantes se foram tornando mais frequentes, crescia a minha atracção por ele. É comprometido, e demasiado correcto, pelo eu tentei conter o jogo, mas não o pude evitar… Surpreendentemente tomou ele a iniciativa de me seguir até à casa de banho, onde acabámos enrolados, sôfregos por satisfazer os desejos dos nossos corpos…

E esse olhar penetrante desconcentra... não é todos os dias que se encontra alguém que quando está a falar connosco nos olha nos olhos…

domingo, novembro 21, 2004

Confundo-me nas paredes húmidas e frias da minha casa silenciosa, pressinto cada seu respirar e pergunto-me a mim mesma, porque raio o deixei entrar…ou ainda, porque insisto partilhar estes estranhos instantes convosco…

“Ora bolas Tomás, que fazes tu aqui?” pergunto…Ele responde qualquer coisa como: “Teus cabelos loiros são…”
Raios o partam…ainda me acorda os vizinhos, os putos dos vizinhos, a velha esquizofrénica do prédio ou lado…ou pior, o cão do quarto andar…aí sim era uma catástrofe; ser responsável e responsabilizada pelo mau dormir de todo o bloco de apartamentos na próxima reunião de condomínio não me parece algo (sequer) suportável!!!
Pelo que me apresso a vestir um roupão turco e a descer os lances de escadas até ao seu encontro…ver se acabo com a maldita da cantoria teatral…que eu própria já não admito!
Dou com ele no rebato, espojado no meio do poeirento tapete, cantando o nosso fado coimbrão, com meia dúzia de camisas dobradas a tiracolo e uma arrogância incrível que se revela a quando da profusão destas palavras: “Hoje durmo em tua casa!”. Pois podem imaginar o meu estado de choque, afinal, eu, a madre Teresa (Calcutáriana), no meio de uma tremenda gripe de caixão à cova, vejo-me de um momento para o outro impingida com um puto-grande, que se diz no direito de usar a minha modesta casinha, como reles motel.
No entanto, sei que não posso recusar…sei que não o posso negar e acabo sorrindo num esgar grosseiro enquanto balbucio: “Claro! Estás à vontade”…No intimo apetece-me esbofeteá-lo, denegri-lo ao pontapé ou simplesmente afoga-lo num alguidar de lixívia pura! Mas como posso recusar estadia ao meu irmãozinho?

Ora bolas Tomás, vê se me largas…

quinta-feira, novembro 18, 2004

Vocabulário usual da Bo e da Lu: Peter Pan

Típico tipo na transição dos vinte para os trinta anos, de vida interessante e bem sucedida. Com uma estapafúrdia tendência para a puerilidade no que diz respeito a sentimentos, alianças e fraldas. Ou seja: um perfeito puto grande que tenta reafirmar a sua juventude através de fodas com lolitas bonitinhas.


terça-feira, novembro 16, 2004



Estoira nos meus ouvidos o som rítmico e aprazível de uma música comercial que toda a gente adora. Estoira na minha consciência a sensação de perfeição por aquele momento.
São duas da tarde, atravessamos a ponte 25 de Abril a 180 km hora e uma sensação de alegria primitiva invade-me…é ele que me provoca este sentimento novo e cada vez mais constante, é ele que me ensina a adorar as coisas simples que durante tanto tempo repudiei como afirmação de um status ao qual ousava ascender e (posteriormente) manter; pelo que a ele agradeço a cada vez mais aceitável e agradável paz que me invade…”Adoro-te! Adoro-te, porque me queres bem e me fazes bem!” murmuro, ele não responde, acho que não ouviu…deve ser pelo barulho que se sobrepõe ás minhas palavras, ou então…será que as proferi realmente? Não me lembro! Também…que interessa isso? Interessa sim aquilo que sinto… e isso penso que ele sente no meu olhar!


sexta-feira, novembro 12, 2004

a m o - t e

E ele liga-me e não resisto a ir ter com ele, e apercebo-me que a minha tentativa de assassinar o que sentia não resultou, e que não queria que tivesse resultado.
“Eu amo-te e se tiveres isso sempre presente vais perceber que nada do que eu faça vai ser para te magoar.” Dizes, e toda eu sorrio. Basta sentir o teu corpo de encontro ao meu para eu perceber, e apercebo-me também que com medo que me magoasses, magoei-te eu.

“Lu… tu és uma puta, mas quero que tu sejas a minha puta.”
E sou.

Ligaste hoje. Outra vez!

Edgar Keats



Frio e cheiro de baunilha misturados no mesmo espaço. Levanto-me da cama e vocifero-lhe que NÃO! Que não suporto mais o pensamento de lhe…tocar…Ele rebenta, embrutecido, num rompante de insultos grosseiros e injuriosos. Vil-vilão, acusa-me de me prostituir com outros, de me vender a palavras que nunca foi capaz de expressar, obrigando-me a chorar de arrependimento por o ter conhecido alguma vez entre a alcova pestilenta onde me despi para si.


Porque é que as relações não podem simplesmente acabar?
Porquê a insistência de reatar relacionamentos que não resultaram?

quinta-feira, novembro 11, 2004

faleceu

Eu não tenho este feitio de “dama de gelo” por causa do poder que me dá, embora também goste disso. Tenho-o porque reinventando-me não me exponho.
O que disseste magoou-me, e eu não gostei que me tivesse magoado. Tenho aversão à fragilidade que os sentimentos me causam, e as tuas palavras foram a bala que usei para matar o que sinto por ti. O luto substitui a paixão pela indiferença que há muito me acompanha e que me protege. Sinto-me bem assim.

terça-feira, novembro 09, 2004

Carrera Gt e string La Perla

Entediada, ligeiramente deitada sobre a mesa pegajosa do café, senti a Ana proferir banalidades base, enquanto que o José concordante a entusiasmava com uivos e assobios, como se ela realmente falasse um dialecto culto e instrutivo sobre qualquer coisa interessante. Pois bem, o tema rondava namorados (parece-me!). A Ana defendia acerrimamente o seu xuxu doirado, mais as 7 quintas do dito, os 3 carros do pseudo sogro e as toneladíssimas de cremes da sogrinha, o Zé abria a boca de espanto a cada marca referida e rosnava que queria um pedacinho de todo aquele “bom partido” que a nossa queridinha tinha desencantado…
Eu continuava sem perceber onde raio é que aqueles dois queriam chegar com tamanhas futilidades, no meu íntimo, apesar de toda a aparente perfeição brilhante do romance da Aninhas, achava que era bem mais feliz com a minha relação da treta e as sempre habituais palavras banhadas, não a ouro mas, a carinho…que eu e o meu amor insistimos trocar!

Nauseada, sentindo-me totalmente démodé no meu amor singelo e desinteresseiro, levantei-me do tampo, onde quase adormeci e cambaleei, fugindo, entre as mesinhas e a confusão do café. Atrás de mim ouvi comentários soltos com palavras feias: “ciumenta”, “frustrada” disseram…Meu deus, até sorri!





domingo, novembro 07, 2004

Sentes-me a falta?

Aqueles momentos que reluzem de tão perfeitos, lembram-me a felicidade efémera que passámos, abraçados.
Acarinhas-me com palavras doces através do móvel, dizes-me que sou especial, mimas-me num extremo delicioso (para ambos). E assim ficamos, cada vez mais necessários um ao outro, cada vez mais apegados a palavras e letras; estas, cada vez mais dolorosas e distantes. Tenho saudades tuas.


"...ordem devassa das coisas..."

Debruçada sobre a iluminada avenida apinhada de gentes e euforias…senti-o percorrer de língua toda a linha da minha perna…Senti-o agarrar violentamente o meu joelho e senti-me debruçar sobre o precipício (que tanto odeio) debaixo da nossa volúpia…
Expeli um gemido suave e arrastado quando me subiu ainda mais o vestido, expeli um gritinho incontrolado quando me tocou as vergonhas, disse-lhe:” Para” quando desejei que continuasse…

No edifício rosa decrépito da nossa frente vi num vislumbre a cara fantasmagórica e voyer de alguém que com certeza nos observava. Encarei-o com raiva e disse meia dúzia de ordinarices que se perderiam segundos mais tarde entre a distância que nos separava e o vento que se fazia sentir. Talvez por não ter recebido a mensagem ofensiva, esse alguém ali permaneceu…talvez por estar demasiado excitada esse alguém não me incomodou…

No minuto seguinte o meu corpo encontrava-se esparramado contra o friso da porta do Hotel, desfrutando do prazer mais primordial e efervescente que alguém pode sentir em cópula tão básica e feroz…mas que fazer? Que fazer para reprimir os nossos instintos bravios? Que fazer para esconder os nossos desejos voyer? Que fazer para mudar a natural ordem devassa e promíscua da nossa existência?

Meu deus, hoje sinto-me tão puta!



Foto: Edgar Keats

quarta-feira, novembro 03, 2004

"You Said Something" - PJHarvey

On a rooftop in Brooklyn
One in the morning
Watching the lights flash
In Manhattan
I see five bridges
The empire state building
And you said something
That I've never forgotten

We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something

And I am doing nothing wrong
Riding in your car
Your radio playing
We sing up to the eighth floor
A rooftop, in Manhattan
One in the morning
When you said something
That I've never forgotten
When you said something
That was really important




Ps. Sinto-te a falta

terça-feira, novembro 02, 2004

A primeira coisa que fiz nessa manha foi falar indefinidamente sobre a minha almofada! Falar como se me ouvisses…dizendo tudo aquilo que me oprimes a esconder…

Disse:
“abraça-me!”
“…protege-me…”