sábado, fevereiro 21, 2004

A velha história

Cheguei a casa estafada pelo corrupio do dia. Depositei toda a atrapalhação de malas e sacos no hall e corri para o telefone. Combinámos um café rápido no fim de jantar.
O tempo foi passando mas tardavas em chegar. “Imprevisto, não dá para conversar. Fica para amanhã”. Não, não fica. Era hoje, aliás tinha de ser agora. Urgente, inadiável.
Detesto essa tua mania de te envolveres em mil compromissos simultaneamente. Acabas sempre por não fazer nada bem feito. Fica sempre algo para trás. Hoje fui eu. Não faz mal. Não havia nada de especial que te quisesse contar. Preferia antes que desvendasses esse mistério. Bastava entreabrir esse véu que usas para me deixar do lado de lá das coisas. Das coisas que não partilhas comigo por medo do ciúme ou da displicência que eu pudesse mostrar. Sou tão alheia ao teu dia-a-dia, às tuas pequenas histórias, aos teus encontros e desencontros, às tuas paixões. Tento manter a compostura, o low profile sem dar a “parte fraca”, sem parar por ali e conversa e chamar-te a ti ridícula e às tuas histórias patéticas. Esforço-me para corresponder àquilo que esperas de mim: boa ouvinte e má conselheira.
Atiro o peso morto do meu corpo de uma só vez para cima da cama (como sei que costumas fazer quando estás incomodada), vou pensar num modo de acabar com esta situação. Enerva-me. Nauseia-me.