quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Cabo Carvoeiro



Sentada em frente ao PC a lambuzar-me com uma manga (vício maldito o de comer enquanto estou no computador), recordo-me daquele episódio insólito. As nossas primeiras férias de Verão juntas.
O orçamento não dava para grandes luxos e o destino mais exótico permitido acabou por ser um parque de campismo para os lados de Peniche. Mesmo sem hotel de 5 estrelas, sem os deliciosos petits pains au chocolat ao pequeno-almoço ou room service, foram as férias mais loucas.
Recordo uma excursão de rapazes de ar nórdico e o casal da tenda ao lado da nossa. Da simpatia da velhota que nos oferecia bolachas quando voltávamos da praia e do meu Swacth que desapareceu nos balneários.
Acabadas de sair do liceu e com a carta de condução acabada de tirar, julgávamo-nos finalmente independentes.
Mas o que viria a tornar aquelas férias inesquecíveis foi mesmo o fim de tarde em que visitámos o Cabo Carvoeiro.
Sentei-me nas rochas em pleno acto contemplativo. Não estava sozinha, mas sentia-me como se estivesse. Qualquer coisa maior comunicava com o meu espírito, controlava o pensamento. Fixei o horizonte e deixei-me envolver pela cadência das ondas que fustigavam as rochas ora com áspera meiguice, ora com a rude violência de uma chicotada. Fui chegando mais perto do precipício para sentir a brisa húmida e salgada do mar. Absorta de todo o resto que me rodeava, senti-o chamar-me num apelo hipnótico e voraz. Eu ouvi o Mar chamar por mim. Como um convite arguto.
Só tu para quebrar o feitiço. Hesitante, disseste-o baixinho e gaguejando. “Eu acho… eu… acho que…”.
Gelei naquele momento. Fixei o horizonte sabendo que esperavas uma reacção minha.
Tu acháva-lo… eu tinha a mais firme certeza.