sábado, fevereiro 28, 2004

Actriz

Os dias passam iguais… ou pouco diferentes. Deixaste um pedacinho de saudade, uma nostalgia tão amarga quanto doce.
Regresso a casa apática, reentro no quarto e volto a sentir a tua presença nas minhas coisas. Nos livros que remexeste, nas gavetas que abriste, tentativa de compreender. Tentativa de absorveres tudo o que é meu e desconheces.
Tu sabe-lo. Olhas no fundo dos meus olhos desvendando o que não te posso esconder. Rimos dos papéis que decorei, dos cenários que pintei em paredes de giz.
Tu sabe-lo. É perigoso sermos felizes. A ti não te escondo o que sou. Por ti não preciso de pintar-me… reinventar-me. Despiste-me muito antes de me tocares. Percebeste-me muito antes de entrares na minha vida.
Agora sei que já lá vais longe que, quem sabe, até recordas com a mesma ternura que eu a noite, o frio, o choro, a volúpia contida do beijo que nos prometemos.
Fico feliz… Ensinei-te a não andar mais com os pés no chão.
Vais diferente, sei que voltas.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

uma praia, princípios de Setembro

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Uma praia, creio que para os lados de Alcochete.
Nós os dois iluminados pelo calor do princípio do fim de tarde, ao som da água do rio Tejo a fazer barulho na areia, e do ladrar da tua cadela a clamar pela tua atenção.
Eu deitada por cima de ti (apoiada com o cotovelo na areia grossa que magoava) em beijos sôfregos nos quais eu creio que transpareci a incredulidade no facto de estar ali contigo, e ciclone de sentimentos que me assolavam.
Sim, eu gostava de ti, mas quanto? Apostei consciente e perdi. Enraiveceste-me. Magoaste-me.

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Fuck off

Comunico que estou de férias...portanto não voltam a ver a minha presença deliciosa por estas bandas...
(Durante uma semana!)

domingo, fevereiro 22, 2004

Desabafo II

Há pessoas que por muito que se esforcem simplesmente não são notadas. Podem fazer o maior dos alaridos que permanecerão transparentes, inexistentes. O típico género de indivíduo pelo qual ninguém dá cinco tostões.
Vestem-se de forma básica, com cores básicas, ostentam um corte de cabelo básico. Raras, raríssimas vezes, apresentam um qualquer (suposto) adereço que, julgam esmagar toda a humanidade com o ar pretensamente fashion que o tal lhes empresta. Discutem assuntos básicos da vida básica de cada um. Básica não, miserável. E como se não bastasse, aposto que fodem de forma básica, quais labregos analfabetos.
Hoje conheci alguém assim. Um verdadeiro assalariado rural, um rústico (como diria a Bo). O perfeito saloio. No entanto sem razão para o ser. Desengane-se quem acha que só aqueles que desconhecem as maravilhas da civilização podem ser aqui incluídos. A verdade é que anda por aí muito cidadão com a pretensão de se achar citadino, cosmopolita, mas que não passa de um bimbo, repito B-I-M-B-O!
Não teria eu nada contra os parolos se estes entendessem as figuras deploráveis a que se prestam, crentes que estão super in. E concluo dizendo: Não há dinheiro que compre o bom gosto. Ou se tem, ou não se tem!

sábado, fevereiro 21, 2004

A velha história

Cheguei a casa estafada pelo corrupio do dia. Depositei toda a atrapalhação de malas e sacos no hall e corri para o telefone. Combinámos um café rápido no fim de jantar.
O tempo foi passando mas tardavas em chegar. “Imprevisto, não dá para conversar. Fica para amanhã”. Não, não fica. Era hoje, aliás tinha de ser agora. Urgente, inadiável.
Detesto essa tua mania de te envolveres em mil compromissos simultaneamente. Acabas sempre por não fazer nada bem feito. Fica sempre algo para trás. Hoje fui eu. Não faz mal. Não havia nada de especial que te quisesse contar. Preferia antes que desvendasses esse mistério. Bastava entreabrir esse véu que usas para me deixar do lado de lá das coisas. Das coisas que não partilhas comigo por medo do ciúme ou da displicência que eu pudesse mostrar. Sou tão alheia ao teu dia-a-dia, às tuas pequenas histórias, aos teus encontros e desencontros, às tuas paixões. Tento manter a compostura, o low profile sem dar a “parte fraca”, sem parar por ali e conversa e chamar-te a ti ridícula e às tuas histórias patéticas. Esforço-me para corresponder àquilo que esperas de mim: boa ouvinte e má conselheira.
Atiro o peso morto do meu corpo de uma só vez para cima da cama (como sei que costumas fazer quando estás incomodada), vou pensar num modo de acabar com esta situação. Enerva-me. Nauseia-me.


quarta-feira, fevereiro 18, 2004

LE FABULEUX DESTIN DE MON COU

- Ma petite qu’ est que tu fais ?
- Rien ! Je suis mort…
Sorriu num esgar matreiro de lobo velho, pegou na câmara, apontou a objectiva sobre a minha pele desprotegida dos ombros e disparou flashes sucessivos ao hematoma rude do meu pescoço chacinado, como que tentando captar o incrível tom arroxeado/doentio em contraste com a base branca/cuidada a “La Mer” diário!
Meses mais tarde recebi em Lisboa um convite “black & white” para a sua mediática exposição; de um dos lados podia ler-se: “Brutal! Violent! Mon amour par toi est mort”, no verso a minha foto…o meu pescoço, as minhas lágrimas, o meu abandono e…a visível afinidade ás palavras.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

teoria

Porque é que quando uma relação se supõe séria a gaja tem tendência a ser mais comedida no que respeita a sexo do que num flirt?
Estúpido mas não infundamentado.
Os gajos são muito hipócritas. Adoram gajas que fodem mas não as querem assumir. Pedem hipocrisia têm-na. Quando uma gaja pensa que é mais sério não fode, para ser levada a sério. Resumindo, se querem foda enganando a gaja com promessas de comprometimento, não fodem, ou fodem pouco, ou fodem de forma básica, porque ela não quer parecer promíscua. Se deixarem as coisas claras desde o princípio podem não foder, mas se ela souber desde sempre as vossas intenções, vai ser muito mais divertido!

foto byJean-Yves Le Squeren

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Pr'a um Amigo

A mesma dor de cabeça que me tem acompanhado nos últimos dias, obrigou-me a parar e reflectir. Depois de uma noite que adivinhou especialmente triste e complicada, acordei com a sensação que precisava de 5 minutos para arrumar as ideias e organizar-me.
A caixa de mensagens do telemóvel estava cheia. Uns perguntavam se ainda demorava, outros pediam um telefonema urgente. “Que dia é hoje, afinal?”, “Bolas, já é uma da tarde…”.
Mas que se passou afinal? Acordei com a cara amassada e os olhos inchados. Ri-me ao encontrar semelhante figura no espelho. Nem o duche ajudou a melhorar o meu aspecto.
Arejei o quarto, enfiei-me num roupão turco e peguei no JN (de ontem) e fui para o terraço. A cabeça dói, continua a doer de forma enervante.
Ontem, o Henrique disse-me as coisas que precisava ouvir. Passou horas, ouvindo-me pacientemente, rodopiando na cadeira da secretária. Concordou comigo, ando estranha. Ando parada.
Disse-lhe que se não fosse a nossa situação, não o deixaria escapar-se-me. O Henrique é um jovem adulto que atura uma namorada neurótica e ciumenta porque… gosta dela.
O Henrique gosta de mim (presumo) porque não conhece mais nenhuma rapariga com as minhas teorias. Ri-se porque acabo as frases que ele começa, porque por vezes “pareço um gajo a pensar”.
Já variadíssimas vezes lhe disse que o considero meu “amigo, irmão, amante”. A namorada faz-lhe fitas…
Ontem tardava em adormecer, estava gelada. O Henrique chegou ao quarto sem fazer barulho (ele tem a minha chave). Ouviu-me, mais uma vez. Sossegou-me. Foi-se embora do mesmo modo que chegou, sem fazer barulho. Quando acordei a dor de cabeça continuava lá.
Obrigada, Henrique. Não sei que desculpa deste à tua namorada. Com certeza disseste-lhe de novo que foste consolar aquela tua amiga. A tal que gosta da “outra”. A tal que não constitui nenhum “perigo”. Até imagino o beijo que lhe deste.


domingo, fevereiro 15, 2004

O principio da noite...

Eu estava deitada com os pés colados na janela. Ele, sentado defronte à traseira do banco da frente, debaixo de mim, concentrado no infinito, penteando os meus cabelos esguios que lhe amaciavam as mãos cansadas e irrequietas. O meu salto metálico chiava gritante e irritante enquanto o movia p’ra cima e p’ra baixo sobre o vidro, ele não parecia muito incomodado.
- Achas que ele vai demorar muito? – perguntei eu expectante.
- Sei lá Bo! Deve estar ainda a vestir-se…mais 10 minutos e apito, tanto tempo para enfiar umas calaças de ganga e um polo!
Os meses passados desde a nossa última saída…e nada mudara, bastou um telefonema fugidio e meia dúzia de palavras para arrancar os “meus gajos” da cama…sem promessas, sem explicações, sem hipocrisia, eles não precisaram de saber por onde andei, ou o que fiz, ou o que me levou a afastar deles…Como bons amigos limitaram-se a aceitar-me com um daqueles sorrisos gigantescos e uma boa disposição contagiante.
Quando o Edu entrou no BM exalando M7 de YSL disse apenas: - “Bo, voltaste!”

You should have met me when I was sixteen

Ok, já basta de lamechices e dias cinzentos! Dores de cabeça ao deitar e crises existencialistas ao pequeno-almoço!
As coisas não têm andando exactamente fabulosas… e daí?!
Hoje tomei uma decisão. Não me vou deixar abater pelas circunstâncias (ou antes pela sua força).
Não é uma questão de meteorologia nem de tensão pré-menstrual!
“Bora” enfiar uns Armani no focinho e tomar café com as “amigas”! Aquelas tais… “fúteis”.
Enfiar-me no carro com os vidros bem abertos e berrar histericamente o refrão: “I believe in a thing called LOVE”!
Contagiar o mundo com a energia que me electrocuta!
Já dizia a música:
DANCE, LIKE YOU WERE SIXTEEN!”
Hoje sinto-me uma miúda!

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

It's not going to stop

Um frio, um aperto, uma dor aguda e fininha que insiste em ficar.
Quase que desisto, quase que exaspero de dúvida e incerteza.
No peito insegurança e angústia.
Repetem-se os gestos. O perfume já não é o mesmo.
Repetem-se as palavras que não dizemos, mas o perfume, esse, já não é o mesmo.

Pedi-te que me levasses o medo, entreguei-me de mãos vazias.
Despi-me para ti de novo. Soou-me a história difícil e antiga.
Soou-te a história vazia e banal.
Dilacera-me o peito cada minuto que vejo passar.
Vejo-me exangue e exausta, o tempo enfraquece-me.
Mudaste?
Mudaste…

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Menina Lua

Concentro-me. Não é visão nem delírio.
Noite. Queita, gelada, serena.
Chá... de jasmim.
Concentro-me. Não é solidão nem tristeza nem nostalgia.
Aconchego. Incenso, cera e lume.


Leva na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Prá ti, ó bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua
Quero te ver clara
Clareando a noite densa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura
Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear

Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar...


Interpretado por Maria Rita, letra de Renato Mota.

Post com dedicatoria

Quero dizer-te num ímpeto de loucura que te adoro, que te quero e que te desejo incessantemente. Com o tacto, com o olfacto e com o paladar recordo os olhares, as carícias e os fluidos trocados na alcova suja e pestilenta onde nos despimos. Tens razão, estou cada vez mais descontrolada…Pena não perceberes o prazer que esse descontrole te poderia oferecer… Sacana ignóbil…Só espero que tenhas a decência e o respeito de não “bater uma” recordando os meus traços ou os meus gemidos, detestaria fazer parte da tua decadência solitária.


segunda-feira, fevereiro 09, 2004

pernas p'ra que te quero?

domingo, fevereiro 08, 2004

Noite

O peso dos cobertores e edredons faz-me lembrar a lenda de Atlas. Respirar é difícil, tal o peso que se abate sobre mim.
Fecho os olhos e tento adormecer. A cabeça roda e com ela todo o quarto. Um zunido distante irrita-me, faz-me voltar na cama com vontade de arrancar as orelhas.
Dormes, ou finges, lá no fundo… bem longe de mim. Porquê? Porque não te deixas tocar?
Adormeço…
Acordo.
O calor agonia, o ar falta…
Estás lá. Quieta, imóvel. Tão perto. No entanto, quase inalcançável, inatingível…
Sinto o teu respirar cadenciado. Estás viva, estás mesmo aqui.
Podia aproximar-me um pouco mais. Não o notarias. Podia afastar o cabelo da tua face e tocar-lhe. Podia tactear os ombros desnudos e ir descendo até aos teus seios quentes, firmes, doces, volumosos seguindo o compasso sereno da tua respiração.
Podia rasgar-te a roupa num acesso de loucura! Ver-te acordar sobressaltada… o temor na tua cara!
Prender-te, amarrar-te, aprisionar-te! Beijar, chupar, morder cada pedaço do teu corpo.
Abafar-te os gritos, os suspiros, os gemidos…
Podia fazer-te minha de qualquer maneira…
Bastava que quisesse. Bastava que quisesses.

sábado, fevereiro 07, 2004

Glory Box



I'm so tired, of playing
Playing with this bow and arrow
Gonna give my heart away
Leave it to the other girls to play
For I've been a temptress too long

Just...

Give me a reason to love you
Give me a reason to be a woman
I just wanna be a woman


Cor de laranja





Pois bem…
Já dizia a nossa querida tia (que por acaso também é mãe!) no livrinho laranja choque dos ditos "sei lás" (que por acaso até nem o eram) que: “escrever é spé complicado…A vó Vitó, que era extremamente culta dizia, com montes de razão, n’é? Que quem escreve não tem tempo para viver, e quem vive não tem tempo pa’ escrever…Ora rico com é que queria qu’ eu escrevesse algo mais intelectualmente estimulante que POP STAR? N’é? Com saps, festas e botox, não há mais tempo pa’ nada.”
(Estas linhas devem ser lidas com sotaque nasalado, se não o fez, retroceda, por favor, e repita a operação a fim de obter mais veracidade no monólogo).
Isto tudo para dizer: “Estou OCUPADISSIMA, não há tempo para escrever nem umas míseras linhas “a despachar” para este espaço

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Apetece-me esmurrar alguém

Apetece-me esmurrar alguém. Não qualquer pessoa, apenas o típico punheteiro, oriundo de variadas classes sociais (sim, porque não é só do rústico!), que apita, faz sinais de luzes ou abranda ao ver uma miúda numa paragem de autocarro!
Sinto-me indignada! É um ultraje!! Tipo: Bastou verem uma mini-saia e umas meias de rede para se comportarem como se eu fosse uma prostituta?!? São mesmo imbecis! É que nem que eu estivesse a poupar para um transplante ao fígado! Mas é que não se tocam!!
Só sei que peguei no telemóvel e passei o tempo todo de espera pelo autocarro a praguejar com o JR por nunca mais ir buscar a porra do BM ao mecânico. **da-se!

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

I give up

Estou absolutamente farta de gajos com complexo de Peter Pan!!!
Eu explico. Um gajo com 30 anos que não esta casado ou é gay, ou está magoado,ou então tem uma grande rodagem. Este ultimo tipo é-me bem familiar. Sabe como as coisas funcionam. Como começam e como acabam. Esta sozinho porque quer, porque se habituou a isso. Age como se tivesse menos 10 anos (daí o Peter Pan), conhece a natureza humana e aproveita-a. Sobretudo, esta-se a cagar. É naquela.
Este tipo de gajo exaspera-me pela falta de consideração.
I give up!

Cabo Carvoeiro



Sentada em frente ao PC a lambuzar-me com uma manga (vício maldito o de comer enquanto estou no computador), recordo-me daquele episódio insólito. As nossas primeiras férias de Verão juntas.
O orçamento não dava para grandes luxos e o destino mais exótico permitido acabou por ser um parque de campismo para os lados de Peniche. Mesmo sem hotel de 5 estrelas, sem os deliciosos petits pains au chocolat ao pequeno-almoço ou room service, foram as férias mais loucas.
Recordo uma excursão de rapazes de ar nórdico e o casal da tenda ao lado da nossa. Da simpatia da velhota que nos oferecia bolachas quando voltávamos da praia e do meu Swacth que desapareceu nos balneários.
Acabadas de sair do liceu e com a carta de condução acabada de tirar, julgávamo-nos finalmente independentes.
Mas o que viria a tornar aquelas férias inesquecíveis foi mesmo o fim de tarde em que visitámos o Cabo Carvoeiro.
Sentei-me nas rochas em pleno acto contemplativo. Não estava sozinha, mas sentia-me como se estivesse. Qualquer coisa maior comunicava com o meu espírito, controlava o pensamento. Fixei o horizonte e deixei-me envolver pela cadência das ondas que fustigavam as rochas ora com áspera meiguice, ora com a rude violência de uma chicotada. Fui chegando mais perto do precipício para sentir a brisa húmida e salgada do mar. Absorta de todo o resto que me rodeava, senti-o chamar-me num apelo hipnótico e voraz. Eu ouvi o Mar chamar por mim. Como um convite arguto.
Só tu para quebrar o feitiço. Hesitante, disseste-o baixinho e gaguejando. “Eu acho… eu… acho que…”.
Gelei naquele momento. Fixei o horizonte sabendo que esperavas uma reacção minha.
Tu acháva-lo… eu tinha a mais firme certeza.

Tenho medo! Sinto um aperto constante no peito só de pensar que podes estar a enganar-me. Arrepio-me sozinha no som gelado e gélido do meu quarto vazio. Sento-me no chão contra a parede cálida calada na noite angustiante de choro em que relembro os momentos passados e os gemidos murmurados entre espasmos violentos e volupia indiscreta. Choro cada vez que ouço a tua voz na cabeça como um ribombar apelativo e saudosssista das palavras que trocamos. Fecho os olhos e inalo o odor bolorento e estagnado daquele sitio que não consigo esquecer...Fecho as mãos e cravo as unhas na minha própria pele...abro-as e observo o rubro do sangue misturar-se com o encarnado das unhas enquanto conto o número de cortes por mim, em mim, infringidos...aqueles que me provocas diariamente são bem mais vastos!
Fazes-me mal!

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

implora-me


by Krueger

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Conversas

Lu: Noventa quilos 'é' muitos quilos...
Bo: Esmagava-te completamente!


pintura de Klimt

Fecho os olhos e...

Lembro um Reveillon passado em tua casa.
Lembro-me de sermos miúdas e bebermos Champagne às escondidas dos adultos.
Lembro quando todos foram dormir e ficámos sozinhas no sofá da sala.
Lembro de estar ao teu colo e da tua mão lânguida a afagar-me o cabelo.
Lembro o teu cheiro adocicado e o lume que crepitava à tua frente.
Lembro os teus seios que inocentemente me tocavam e do arrepio que me provocaram.
Lembro do teu calor.
Lembro do filme obsceno que passava na televisão.
Lembro do beijo que não demos.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

I

Sinto o bater acelerado do meu coração, sinto um latejar estranho dentro de mim, como se ele ainda continuasse aquele vai e vem, e uma dor fininha, forte, por ele ter rompido uma parte de mim.
Mexo-me e sinto o lençol húmido, do meu sangue ou das suas entranhas (a sua única decência: não o fez dentro de mim).
Olho para ele e sinto nojo. Nojo pelo seu corpo coberto de pelos, pela sua barriga e pela sua flacidez ridícula. Nojo pelo que fizemos. Nojo de mim que deixei que ele me conspurcasse, porque o procurei e até incentivei.
Nojo. Nojo. Nojo.
Só quero sair daqui e nunca mais olhar a cara dele.


by Lena
(pintura:Ta Bouche de Toulouse Lautrec)

domingo, fevereiro 01, 2004

O jantar das amigas

'Silk & Shine' - deve ser isto, penso. Pego no verniz e corro para a caixa menos concorrida.
Pois é. Fim do mês e as famílias abastecem-se de mercearia, carne, peixe, fruta e hortaliças nos hiper's que brotam por aí.
Já no estacionamento subterrâneo puxo p'la memória - K3? ou era antes K8? Pilares laranja... deve ser lá ao fundo. Finalmente dou com o carro, exactamente quando me preparava para entrar em pânico. Às vezes, pareço uma assalariada rural perdida entre estas novas modalidades de estacionamento automóvel. Sento-me ao volante, desembrulho o verniz e eis que, dentro dum carro em pleno parque subterrâneo, há uma tolinha que tenta fazer a sua própria manicure. As figuras a que me presto!...
Tudo isto porque daí a algumas horas tinhas combinado um jantar com essas tuas novas amigas. Não é muito do meu estilo perder tempo com este género de coisas, mas achei que a ocasião o exigia.
Oito horas certas estou à porta de tua casa. Desces com o ar indeciso de quem ainda vai voltar atrás para mudar a toilette.
Chegadas ao restaurante, bastou olhar (ainda que de soslaio) as tuas ditas 'amigas', para depressa perceber que não passavam de umas reles 'colegas' de faculdade. Umas miudinhas sequer ainda saídas da adolêscencia com uma conversa parva, absolutamente fútil, bastante para me fazer desejar sair dali o mais rápido possível.
A sobremesa tardava em chegar. Inventei uma desculpa e vim até à porta fumar o cigarro que me prometia acordar daquele pesadelo sem sentido. 'Que bem que deve estar na praia' - pensei.
De volta ao suplício, tentava controlar-me para não desatar a berrar com aquele pequeno (mas em número suficiente para fazer-me perder as estribeiras) grupo de raparigas histéricas.
Finda a patética refeição, reparo com atenção no bordeaux brilhante do verniz que, subitamente, me parecia o único sinal de sobriedade de espírito (apesar de côr, repare-se bem!) que dali restava.
Tou aborrecida contigo. Sei que, apesar de nem sempre parecer, és uma pessoa 'comedida e circunspecta' como, aliás, o dizes ironicamente para te meteres comigo, mas daí até te relacionares com gente sem algum género de conteúdo...
Estás diferente, ou serei eu que ainda não me habituei ao facto de saber que irei envelhecer antes de ti? É uma questão de idade? Ou de mentalidade? Ou de personalidade?
Mas pior que isso, é achar que te amo à mesma!