segunda-feira, janeiro 19, 2004

Há dias assim

Há dias assim... Acordo tão bem disposta, tão enérgica, que nem sei o que fazer. Foi o que aconteceu um destes dias... Quando dei por mim estava a sair cabeleireiro, onde tinha passado toda a santa tarde. E não me sentia lá muito melhor por isso.
- Ao menos estou ruiva. Fez-se a vontade da Bo - pensei.
Espero uma eternidade pelo bus que tarda em chegar.
- Transportes públicos... Odeio isto! A minha prenda de Natal não há-de continuar à porta de casa a estorvar o trânsito, porra!...
Já em casa, relaxava num banho de espuma da Estée Lauder e roía uma cenoura (combinação estranha, não?), enquanto fazia contas à vida. Acendi umas velas e queimei incenso, proporcionando a mim mesma um jantar romântico... sozinha.
E bem mais tarde, muito mais tarde, já a tv publicitava a quinquilharia da TvShop, telefonavas em completo desespero.
Visto-me de qualquer maneira, pego na pochette e nas chaves do carro e vôo a 180 Km/h pela A1. Ao chegar ao Porto, o nevoeiro cerrado quase me faz atropelar o homenzinho da recolha do lixo, que me insulta à boa moda do Norte.
Deixas a porta entreaberta. Na cozinha, a porta do congelador está aberta, também. Há saquinhos e cubos de gelo espalhados pelo chão... Na sala, uma nuvem de fumo espesso esconde-te lá ao canto. Atiro-me, suspirando, pr’a chaise longue de pele de pónei do Courbusier. Puxo de um cigarro. Não há cinzeiro, está contigo.
Falas. Falas. Falas (ou serão todas essas Vodka’s de sabores inimagináveis que falam por ti?)
Gritas. Esperneias. Pintas a manta.
Por fim, lá te cansas da tua conversa desequilibrada e histérica e arrastas-te pr’a cama.
Arejo a sala. Arrumo aquela cozinha caótica.
Quando finalmente chego à cama, já o Sol parece querer nascer.
Beijas-me embriagada e embriagando-me. Apressas-te a arrancar a tua e a minha roupa.
Houve gritos e risos... gemidos e suspiros... que nos fizeram adormecer exaustas p’la volúpia que nos consumira.
- Já é meio-dia, merda! - berrei, enquanto procurava a minha roupa.
Ao fim de alguns minutos já estava pronta e a sair de casa.
- Ligas logo? - perguntas a meio do beijo de despedida, prontamente interrompido por alguém que abre a porta do elevador, sem que nada o fizesse adivinhar. A senhora dá um «Ai Jesus!» e deixa cair os sacos das compras ao chão, aterrorizada.
Vai haver reunião extraordinária de condomínio, está-se mesmo a ver!... Não te preocupes, qualquer coisa vens pr’a minha casa - penso, enquanto vôo de regresso a Coimbra, a 180 Km/h p’la A1...