segunda-feira, outubro 27, 2003

Peças de um puzzle - 1ª peça

Acho que começou na queima das fitas de Coimbra, tinha eu 18 anos. Estava quase a acabar o primeiro ano de um curso promissor que abominava e tinha o porta moedas vazio. Foi num concerto de hip-hop e eu tinha à minha frente um grupo de pitas de classe media alta de aparência colorida e sebosa. Cantavam letras que apregoavam as dificuldades do gueto como se nele vivessem e as sentissem na pele, enquanto trajavam roupas de marcas que me eram indiferentes tanto pelo preço como pelo mau gosto. Enraivecida com a atitude indiferente à sorte que as pitas ostentavam e enjoada com a musica com que teimava em não me identificar, saí apressada do lamaçal e fui para casa estudar. Não queria saber de queima, de bebida, de cortejo, de noites. Não tinha dinheiro para isso de qualquer forma. O importante é o futuro. Ter um emprego, seja ele qual for, que dê dinheiro. Eu nem tinha um gosto especial por alguma profissão... aquela dar-me-ía o tempo livre para algo que gostasse mesmo de fazer e o dinheiro para isso. Mas antes eram urgentes as boas notas.