terça-feira, julho 01, 2003

Bulimia

Entro em casa, vazia a esta hora. Abro o frigorífico enquanto descalço os stilettos.
Estou faminta, não comi nada todo o dia.
Encontro vegetais, restos de creme de espargos com lavagante e de risotto de grelos que ontem me recusei a comer por uma suposta má disposição, yogurtes, molhos, uma taça de sorvete natural de citrinos quase intacta, frutas, foi gras e os iogurtes magros de que me era suposto alimentar nos últimos dias.
Olhei para eles e para o creme de lavagante, enquanto bebia um gole de vinho de Muros de Melgaço - Alvarinho ’02.
Quando o creme de lavagante acabou apetecem-me vegetais. Com um molho de mistura de maionese, ketchup, mostarda e whisky. Depois não resisto ao sorvete. Estava tão enjoativamente doce...
Olho para a mesa desarrumada e sinto culpa pelo pecado. Começo a chorar.
Corro para a casa de banho, levanto a tampa da sanita e ajoelho-me. Ponho os dedos na boca e toco nas amígdalas. A pasta de comida por digerir começa a sair em golfadas e deixa um sabor azedo na boca e uma baba repugnante nos dedos. Lavo-os antes de os voltar a enfiar na boca. Mais golfadas amargas, desta vez também de nojo pelo que os olhos vêem. Regurgitei durante um tempo que me pareceu infindável até sair apenas líquido. No ar está um odor ácido, fétido, que impregna toda a divisão.
Lavo as mãos e a boca. Descarrego o autoclismo e apago os vestígios do meu pecado. Olho-me no espelho. O vómito fez-me lacrimejar. Lavo a cara.
Não faço isto sempre, mas sei que tenho um problema. Porque sou eu assim?