quinta-feira, julho 31, 2003

No princípio de uma relação

Estou na esplanada de um café com vista para o mar a relaxar depois de um turno da noite e de uma manhã mal dormida. O cansaço, a melancolia, a solidão e paisagem levam-me o pensamento até ti. Onde estas? O que estas a fazer?
O telemóvel toca e eu estremeço. A ténue possibilidade de seres tu acelera-me o ritmo cardíaco, mas afinal é a minha mãe. Não me apetece falar com ela e limito-me a retirar-lhe o som. Insiste. Mais tarde dir-lhe-ei que estava algures onde não podia atender.
Olho para as enormes ondas e para os reflexos do sol na água e penso que deves estar a trabalhar. Quero falar contigo, mas não me ocorre nenhuma desculpa para te ligar. Preciso de uma? Amuo. Não gosto de telemóveis.

terça-feira, julho 29, 2003

Sonho de uma noite de Verão

Sentei o meu rabo preguiçoso numa pedra da beira da estrada, descalcei os malditos sapatos e dispus os pés sobre a poeira suja e granosa do chão!
Caminhei serpenteante, ziguezagueando com uma criança entre as rochas e arbustos rasteiros da berma, abracei-o pela cintura e sussurrei-lhe no ouvido: "Põe esta merda a trabalhar ou cravo-te o salto do sapato nesta veiazita do pescoço". Num gesto brusco ele agarrou-me o braço, apertou-me o pulso e disse: "Para!".
Cuspi-lhe saliva e raiva na cara enquanto gritava: "Maldito idiota".
Apertei as mãos na cabeça e encostei-me ao vidro! Estávamos há duas horas perdidos no meio daquele caminho de cabras, sem rede, sem aldeias á vista e sem movimentos de outros automóveis, eu estava a ficar doida.

Tive flashes! Lembrei-me do que provocara aquela situação e vi-me a sair do carro, vi-me a correr pelo campo descampado, vi-o seguir-me, vi-nos rir, vi-me cair! Ele caiu sobre mim, levantou-me o vestido, desapertou-me a alça... “Era tão bom se pudéssemos ficar aqui para sempre...Livra-te do carro, livra-te da roupa...vamos ficar despidos tal qual um Adão e uma Eva do paraíso!". Ele levantou-se calmamente, dirigiu-se para aquele poço escondido e atirou tudo (incluindo as chaves do sl500 e a minha Vuitton) lá para baixo...
Depois rebolámos pela erva, entre tanta euforia e gargalhada nem nos apercebemos do que acabávamos d fazer!
Quando passou a moca foi tudo diferente...

quarta-feira, julho 16, 2003

Fetiche com as costas dele...

Ele estava de costas, vestia uns jeans velhos raspados e uma t-shirt branca com umas pequenas estampas rubras. Finquei os olhos no seu pescoço, observei a curva dos ombros e concentrei-me nas costas! Tinha umas costas bonitas e cada movimento que fazia exercitava os músculos, excitava-me a mim…
Quase que me vejo a dar-lhe dois beijos rápidos e a dizer: "Oh querido, estou tão feliz por te ver...dá-me um abraço", então deslizava os meus dedos magros e ossudos pelas saliências da pele e apertava pequenas porções entre as unhas beliscando-as deliberadamente…

sábado, julho 12, 2003

Lu aos 18 anos

Espero que os meus pais se deitem e em silêncio visto-me, maquilho-me e calço-me. Pego na carteira e saio porta fora. Abençoada casa que de tão grande me permite sair sem ninguém notar. «Shiuu» Murmuro aos cães, já treinados por mim para não assinalarem a minha presença. Abro o portão devagarinho, receosa pelo seu ranger. É o único obstáculo. Desço a rua e espero. Passa um carro e eu escondo a cara. Finalmente vejo o carro do J.A..
- Quanto é que é o beijinho?
- Não seja parvo. Porque demorou tanto?
- Você é que chegou demasiado cedo.
Perdemo-nos pela noite. Às oito da manhã deixa-me à porta de casa. Fecho o portão que tinha deixado aberto com os normais cuidados. Entro em casa já a despir-me e escondo a roupa que cheira a tabaco. Desmaquilho-me enquanto mando uma mensagem ao J.A. a dizer que está tudo bem. Entro no duche. Liberto-me dos vestígios da noite com um gel de banho de activo cheiro a pêssego. O meu pai bate-me á porta. “Já acordada?”Saio do duche e preparo-me. Vou sonolenta para a missa, e no fim vou dar catequese aos meus queridos meninos do terceiro ano.
Almoço em casa da Bo. Adormeço no sofá e durmo toda a tarde, até que acordo ela a chamar-me.
- Bela Adormecida, hora de acordar! Acorda, vamos ao Porto! O Tomás ligou a convidar-nos para ir brincar para o Douro com motas de água. Acho que o amigo dele está interessado em ti, querida.

sexta-feira, julho 11, 2003

Scrable e Champanhe

Apanhei uma bebedeira! Eu sei que não é nenhuma novidade mas desta vez foi muito má, quer dizer, pior que as outras. Enfim... um descalabro total!
Embebedei-me á base de bacardi lemon, açúcar e vodka, não me perguntem qual e o sabor, não faço a menor ideia pois quando comecei a dar nos shots já tinha a garganta adormecida com um bom whisky puro! E tudo começou com um mísero jogo!
Eu e a Lu sentámo-nos à beira da piscina com duas taças de champanhe como adereço, abrimos o tabuleiro do Scrable e começamos a jogar. A meio do jogo decidi formar a palavra “fod*” mas a Lu considerou a palavra inválida e desatou com um sermão de Santa Antónia aos peixes “Esta palavra não conta!”, “Porquê?”, ”Porque é uma injúria contra o Senhor, raios pá, isto é uma asneira!” Olhei para ela de boca aberta, revirei os olhos “Estás bêbeda!”, “Não estou!”e dizendo isto dirigiu-se á garrafa de champanhe que estava acomodada num balde de gelo junto ao guarda sol mas em vez de servir as taças agitou-a rapidamente, apontou para mim e começou a encher-me daquela espuma branca... “Oh Lu! Pára... Pára... olha o meu bikini La Perla... Pára. Tu... Tu sabes quanto custa uma garrafa dessas?”, ela finalmente parou “É o PP que paga... tem que pagar bem aquelas coisas humilhantes...”
Parei de rir, senti um nó na garganta, senti uma tristeza imensa, senti que ia desfalecer em lágrimas... Corri para dentro de casa, abri repentinamente as portas do armário do bar, tirei uma garrafa de whisky e olhei para ela até que a Lu apareceu sem fôlego! Abraçou-me e disse: “Vamos embebedarmo-nos! Vai ficar tudo bem”

quinta-feira, julho 10, 2003

manifesto

Sou alérgica à base Chanel. Porque é que se testam os cosméticos em animais, se nem mesmo assim são anti alérgicos? É a Chanel!!

Boca tipo aspirador

Entrei em casa completamente aturdida. Cambaleei pelo hall e aos tropeções encontrei o interruptor avariado, resmunguei, praguejei e bradei para ninguém: “Quando é que me concertam a luz da entrada? Incompetentes, sovinas, onde é que enfiam o maldito dinheiro do condomínio?”

Quando entrei em casa, descalcei os sapatos, coloquei os pés na banheira e friccionei o calcanhar vigorosamente com uma ponta de água, tentando desesperadamente livrar-me do sangue que se acumulava nos refegos da pele... As sádicas tiras de couro da sandália haviam-me apertado a pele até se formar um proeminente e insistente calo que se viria a desfazer em sangue sobre a pele clara do meu calcanhar “Raios!”.
Desinfectei a dolorosa ferida com algodão embebido em álcool, coloquei um penso rápido e dirigi-me para o quarto onde acendi a luz e... deparei-me com... com o D.W. deitado na minha cama!
“Que é esta merda DW?” gritei-lhe sem ponta de paciência.
DW despertou no inferno! Arregalou os olhos com uma expressão intimidada e envergonhada “Bo!... Não devias estar a acompanhar o PP em Cannes?”
“Devia! Mas ... Mas isso não interessa nada, percebes? Agora aproveitas as minhas viagens para trazer miúdos cá para casa? Olha a decência!”
“Bo...” começou ele
“Quem é ele? Um puto drogado? Agora tens de pagar para dar uma queca? E ainda por cima aqui para casa....”
“Bo, ele é mais velho que tu!”
Sorri já farta de gritar e atirei-me sobre o D.W. “Desculpa ser tão paranóica! Tive saudades tuas”, disse-lhe enquanto o sufocava num abraço interminável “Mas ainda me deves uma explicação!”
“Olha para a cara dele, Bo! Está assustadíssimo – tinha razão! – É que ele não fala um boi de português, é um Holandês lindo…
“Um Querubim adorável”
“Encontrei-o no Portas Largas, tem uma reputação impecável e... não cobra nada sua tola…é apenas um verdadeiro viciado do sexo e... tem uma boca que é um poderoso aspirador!”
Não me consegui conter e rebentei de novo uma risada estridente e prolongada....
“Bo! Vim para aqui porque o meu apartamento está a ser remodelado... tu estavas em Cannes e a Lu foi para um SPA na serra da Estrela... Oh Bo, um motel é um sítio tão baixo!” explicou ele enquanto fazia um beicinho de menino
“Ok querido! Eu não estou chateada... estou ensonada...vamos dormir que eu amanha conto-te o que se passou em Cannes!”
Deslizei para o meio daqueles dois, aconcheguei-me contra o corpo do “Deus holandês” e senti a mão dele a acariciar-me a coxa... “mas que raio, o miúdo está a apaçpar-me!”
O D. W. Sorriu e disse: ”Esqueci-me de te dizer, ele não é gay, é mais... bi. Enfim, dá para os dois lados”.
“Os homens são todos iguais. Se fosses um homem já não te ligava há muito.”

quarta-feira, julho 09, 2003

repugnância

O casamento é o evento social que mais abomino.
Não me imagino casada, apesar do desgosto da minha avó. Os meus pais não são um exemplo de casal feliz, encontram-se inúmeros casos de fracassos conjugais e mesmo os que aparentam terem uma relação saudável muitas vezes não o são. Por exemplo, quando estava a sair do último casamento a que fui encontrei um advogado de renome e a mulher, cuja família é amiga da minha. Olhei as suas mãos entrelaçadas e o aspecto de casalinho feliz aos sorrisinhos e abraços.
- Lu, então já vai? - e aproximaram-se.- Como estão?
- Bem, está deslumbrante! A Inglaterra fez-lhe bem…
- Gentileza vossa…
Sorri enquanto reparava no olhar atento dele.
Não suporto estas conversas de ocasião e para as evitar costumo perder-me pela pista de dança. O homem que agora sorria à esposa adorada, puxou-me para dançar e atreveu-se a perguntar se depois, um dia destes, podíamos “sair, ou assim...”. Respondi-lhe que “Não. Por quem me toma?” e felizmente na altura fui salva pelo começar de outra música que tinha prometido dançar com o D.W.
Como pôde ele insinuar-se daquela forma descarada e naquele momento estar ali como se nada se tivesse passado? É um hipócrita e repugna-me.

terça-feira, julho 08, 2003

Nostalgia, ou quase....

”E ainda dizem que as gajas não sabem trocar pneus!!” pensei enquanto ele tentava perceber como funcionava o macaco, receoso pela sua camisa nova de Yves Saint Laurant. Deus! … Só lhe faltava telefonar ao pai! É que eu nem sei como é que ele se apercebeu que o pneu estava vazio… Virei-lhe costas e fui-me sentar no capot do carro. Tirei as sandálias e subi. Deitei-me sobre o vidro gélido e recordei o tempo em que saía com o pessoal do rústico. Lembrei-me do dia em que saí com o J.A., e que ele ao ver o pneu furado me disse a sorrir «Não te preocupes que eu já troquei o pneu a um camião.» e trocou o pneu em menos de vinte minutos. E lembrei-me que depois disse muito espantada «Eu já tenho a solução!» e de tirar uma garrafa de água da minha mala onde cabia tudo. «Água para lavares as mãos!! E dele se rir com gosto em vez de fazer ares afectados como se eu fosse tola. E depois lembrei-me da música de carrinhos de choque que ele punha.
- Está parva?? Saia imediatamente daí.
Calcei-me e saí de cima do carro. Ele estava lá atrás a tentar tirar as porcas e a difamar o pobre pneu.
- Esta merda é perra!- Escusa de falar com esses modos. Experimente rodar para o outro lado.

quinta-feira, julho 03, 2003

um amigo

- Vamos fazer um brinde!
- Lu, está completamente embriagada…
Sorrio.
- Não… acha? Vamos é fazer mais um brinde. Um brinde à… à vida! A esta puta de vida.
- Acalme-se. É melhor ir para casa. Como veio? Quer que a leve?
- Eu trouxe carro, mas eu não quero ir. Quero ficar. Fique aqui comigo…. Beba mais um copo.
- Não, eu vou e você vai também. Onde está o seu carro? E as chaves?
- Não.
Levanto-me e tento virar-lhe as costas mas vejo tudo à roda. Estou tão tonta… Agarro-me à mesa e volto a sentar-me. Ele levanta-me e segura-me.
- Anda.
- A minha Vuitton Trotteur …
- Está aqui.
Pus os braços em volta do seu pescoço e fechei os olhos. Conduziu-me ao carro e sentou-me no banco à frente. Sentou-se a meu lado.
- Onde me levas? – Perguntei-lhe.
- A casa.
Deixei-me levar. Quando chegamos, abriu-me a porta do carro e amparou-me até à porta de casa. Abriu-a e pegou-me ao colo até à cama. Eu não tinha reacção. Lembro-me que me descalçou as sandálias e tirou-me os cintos e os brincos. Abriu a cama e cobriu-me.
- Obrigada, és um querido. – Gemi.

Reflexão

Já alguma vez pensou na complexidade do verniz dos pés?
Portanto imagine que tem uma sandália vermelha, decide pintar as unhas também de vermelho mas corre o risco de fazer o tom destoar com a camisa, com a mala ou com o próprio verniz das mãos! Sim, é um problema difícil, agravado ainda mais com inexistência de regras de moda…Ah pensa que existem regras de moda? Que disparate! Eu sou uma autoridade na Vogue e digo-lhe, nunca li ou escrevi qualquer coisa acerca do assunto…antes tivesse escrito, se o tivesse feito em tempo devido talvez não existisse agora esta completa liberdade que permite até (veja-se) acrescentar purpurina e pequenos autocolantes á ponta do dedo!! Que idiotice…

terça-feira, julho 01, 2003

Bulimia

Entro em casa, vazia a esta hora. Abro o frigorífico enquanto descalço os stilettos.
Estou faminta, não comi nada todo o dia.
Encontro vegetais, restos de creme de espargos com lavagante e de risotto de grelos que ontem me recusei a comer por uma suposta má disposição, yogurtes, molhos, uma taça de sorvete natural de citrinos quase intacta, frutas, foi gras e os iogurtes magros de que me era suposto alimentar nos últimos dias.
Olhei para eles e para o creme de lavagante, enquanto bebia um gole de vinho de Muros de Melgaço - Alvarinho ’02.
Quando o creme de lavagante acabou apetecem-me vegetais. Com um molho de mistura de maionese, ketchup, mostarda e whisky. Depois não resisto ao sorvete. Estava tão enjoativamente doce...
Olho para a mesa desarrumada e sinto culpa pelo pecado. Começo a chorar.
Corro para a casa de banho, levanto a tampa da sanita e ajoelho-me. Ponho os dedos na boca e toco nas amígdalas. A pasta de comida por digerir começa a sair em golfadas e deixa um sabor azedo na boca e uma baba repugnante nos dedos. Lavo-os antes de os voltar a enfiar na boca. Mais golfadas amargas, desta vez também de nojo pelo que os olhos vêem. Regurgitei durante um tempo que me pareceu infindável até sair apenas líquido. No ar está um odor ácido, fétido, que impregna toda a divisão.
Lavo as mãos e a boca. Descarrego o autoclismo e apago os vestígios do meu pecado. Olho-me no espelho. O vómito fez-me lacrimejar. Lavo a cara.
Não faço isto sempre, mas sei que tenho um problema. Porque sou eu assim?