segunda-feira, junho 30, 2003

Delírios

- Oh, Meu Deus, mas porque é que ele não me responde ao mail? Olhe para mim. Eu não sou gira?
Olhas-me com aquele só teu jeito amuado.
- É querida. Muito gira. Ele tem mais que fazer. O banco, a vela... Sabe que a regata é daqui a pouco, ele tem que treinar. Não deve ser propriamente obcecado com a caixa de correio.»
Amuas.
- E a outra, como é? Tão boa como eu?
- Não, nem lhe prestei muita atenção.
Enches o copo.
- Que merda!
Esvazias o copo, pousa-lo e vens sentar-te ao meu lado no sofá e aninhas-te nos meus braços.
Reparo nos teus pés. Descalços, magros, de pele alva contrastante com o verniz de sangue. O cabelo que sobeja de cores entre o louro e o castanho está impregnado com um cheiro inebriante a maçã. «Tem o cabelo às riscas!», dissera-lhe eu quando ela me apareceu assim à frente.
Pego numa madeixa comprida e quase branca. Puxo-a suavemente enquanto observo a grande cruz preta, gótica, que pende meio escondida dentro do teu decote. Agarro a cruz sob o teu olhar atento. Olhas-me nos olhos e eu fixo-os nos lábios. Beijo-os ternamente enquanto restituo a cruz ao decote. Acaricio-o delicada e meigamente. Desaperto-lhe a blusa e percorro o seu ventre, apenas com as pontas das unhas, enquanto nos continuámos a beijar. Paro para encher o copo. A garrafa estava vazia. - Mas...- Não, ela não é mais gira do que tu.
Sorris-me.