domingo, outubro 30, 2005

Toujours le même film

Na sala misturavam-se mesas de bilhar, televisor gigante, aparelhagem, pilhas de jornais, livros, cds e um saco ainda meio cheio com roupas. Eu, ignorei a confusão de papéis que invadia o sofá, sentei-me num canto agarrada a uma almofada de pelo e puxei da “Actual” para dar uma vistinha de olhos.
Ele sentou-se ao meu lado. Sôfrego e ávido começou por me explorar o pescoço, a nuca e o lóbulo da orelha, não me deixando espaço, ou ânimo para continuar a ler o artigo arranjadinho sobre o desarranjo que vai no teatro nacional.
“Anda, vamos até lá cima” disse-me enquanto me puxava o braço…

Deitou-me numa cama de um dos quartos de hóspedes, desapertou-me os jeans num gesto lento e lascivo que tomei com grande sensualidade, lambeu-me o peito num movimento carinhoso e estranhamente impetuoso, “és linda” disse-me. Estremeci com estas palavras, acordei do transe egoísta em que mergulhara e desci-lhe pelo peito até lhe tocar o corpo…lambi-o, não só porque adoro lamber e degustar chupa-chupas, mas também porque o seu sabor era doce e agradável na garganta.
Em segundos deleitou-se na minha boca, em segundos eu decidi parar e em minutos pensei em voltar para casa.
“Quero ir embora” disse-lhe. Ele não insistiu para que eu ficasse…estava amuado como um bebé de colo, principalmente depois do nosso diálogo sussurrado:
- Quero beijar-te sempre. És minha!
- Não, não sou…

terça-feira, setembro 20, 2005

We love Brussels

"Ai vocês vão casar para Bruxelas? Acho bem, acho muito bem. Lá de certeza que encontram um marido…A Marina, aquela minha colega de curso, está lá a viver e diz que não para de ser assediada por todo o lado! Não façam essas caras, é verdade! Sabem que Bruxelas está infestada de muçulmanos e eles podem ter umas sete ou oito mulheres, por isso passam o dia a pedir gente em casamento no meio da rua…Um descaramento!” disse um Bernardo sarcástico.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Upper East

Numa dessas tarde, duas miúdas encontravam-se num restaurante do Upper East Side Lisboeta para provar uma nova ementa de peixe norueguês e socializar um bocadinho. Inevitavelmente a conversa foi parar a um futuro próximo que todos esperamos mas poucos admitem, e três garfadas depois elas já só falavam nos hipotéticos maridos, nas pressupostas crianças e nas inevitáveis festas de divórcio.
“Eu acho que ser divorciada é muito mais giro que ser solteira” disse Lu com um copo de chá gelado na mão enquanto fazia um largo gesto de tchim-tchim.
“Eu penso que estás a exagerar. Ser solteira até aos trinta e tais é perfeitamente aceitável e divertido…” concluiu Bô com um sorriso.
“Claro, claro e depois quando te fartares de tanto divertimento podes sempre pegar numa mala e ir até Bruxelas”
“Bruxelas?” perguntou Bô de sobrancelha levantada.
“Sim, Bruxelas! Existem lá imensos políticos interessantes…já pensaste nisso? Claro que o facto de na altura teres 35 anos também ajuda, eles não podem casar com raparigas muito mais novas...” acrescentou Lu enquanto pousava o copo na mesa.
Bô riu alto e concluiu “Somos da geração Sexo e a Cidade, está visto! Abaixo as Desperate Housewives!”.


sexta-feira, setembro 16, 2005

o regresso

Andava pela casa a dançar ao som de musica tradicional chinesa, com o cabelo amarrado e empastado de mascara hidratante, vestida apenas com a minha saia branca rodada e a lingerie vermelha La Perla que os meus amigos me deram no Natal passado, quando tocou a campainha. Procurei uma camisola na desarrumação do quarto e fui abrir. Eras tu.

Sentamo-nos no sofá da sala a conversar nada de importante. Apercebo-me que tive saudades do teu modo coquete, do teu sarcasmo arrogante, de ti.

A última vez que nos vimos foi há pelo menos cinco meses, na noite em que nos beijamos. Começaste a não me atender as chamadas, não me respondeste às mensagens. Percebi que te querias distanciar e não quis forçar a situação, não insisti.

- Peço-te desculpa, mas tenho que ir lavar o cabelo. Já deves ter reparado que tenho uma máscara aplicada. Não demoro, é só passar por água.

Na casa de banho, enquanto a água morna escorre pelo meu cabelo, revejo aquela noite. Deitadas a conversar, tu a saberes o que eu sentia por ti, eu expectante por uma reacção que chegou naquele roçar de lábios e de língua. E depois o silêncio.

Sento-me de novo ao teu lado no sofá ainda a borrifar o cabelo com o condicionador. Contas-me uma história, passada no hospital onde andas a trabalhar, de um doente que tinha citus inversus. Eu vou-me penteando enquanto te ouço.
- O teu cabelo está tão comprido! Ultrapassa o teu umbigo. – Diz, e segura-me a ponta de um caracol.
- Só se nota assim, molhado. Ajudas-me a pentear?
Estamos caladas enquanto me escovas o cabelo. Não está embaraçado, mas continuas a escovar-mo.
- Está macio.
- É dos produtos que lhe ponho. Não sabes o trabalho que me dá.
E calamo-nos de novo. O silêncio torna-se desconfortável ao ponto de decidires começar a falar a sério.
- Senti a tua falta. Não podemos voltar a ser como antes?

sexta-feira, agosto 12, 2005

O atípico tipo

“Desculpa, foi o transito!” disse-me ele enquanto se inclinava para me presentear com dois pequenos beijos nas bochechas, “Não tem importância…Hum…Onde vamos jantar?” perguntei-lhe enquanto descalsava aquelas malditas sandálias e atirava a mala para o banco de traz “Pensei naquele restaurante da marginal, adoro-o e hoje nem deve estar muito cheio”, “Bem, eu tinha pensado numa coisa mais calma, está tanto frio, apetece-me mesmo ir para tua casa. Porque não vamos buscar uma pizza?”. Ele olhou-me de soslaio enquanto tentava manter os olhos na estrada e aceitou sem mais discusões. Adoro-o por isso.
Quando chegamos á Pizza Hut fez-me escolher tudo porque “eu não percebo nada disto”. Em casa, ligou o aquecimento, dispos dois partos sobre a mesa da cozinha e preparou-se para ir buscar os copos quando eu o interrompi: “Oh querido, mas para que é isto? Queres comer a pizza com talher?”, “Claro” respondeu ele e sem mais demoras apresou-se a ir buscar também dois guardanapos de pano.
No final da refeição sentei-me sobre um banco alto e permaneci no janelão da cozinha olhando o buraco negro onde sabia estar o mar e ouvindo os barulhos irritantes enquanto ele, exageradamente cuidadoso, levantava a loiça e a colocava dentro da máquina. Não percebia todo aquele cuidado e sinceramente já começava a acreditar que todo o selo não era estratégia para impressionar “a miúda” mas hábito quotidiano. Estranho, não?
Por fim deitamo-nos no sofá…Ele foi buscar uma daquelas adoráveis mantas moher para me aconchegar os ombros e eu enrosquei-me nos seus braços enquanto ele puxava do caderno económico e começava a relatar qualquer coisa relativamente a um qualquer artigo sobre o qual eu não tinha qualquer interesse…Foi mais ou menos nesse momento que me assustei e antes que adormecese de vez, levantei-me de um pulo, ajoelhei-me sobre o tapete da sala, levantei o pólo de lã e tentei humedecer-lhe o mamilo com os labios. Ele pegou-me no queixo, fez-me encar-lhe os olhos e murmurou quase em surdina: “És tão bonita, não precisas de fazer isto!”.
Pois não! Eu não precisara de fazer nada e isso era exatamente o que me impelia a querer fazê-lo. Simplesmente havia algo que não fazia sentido…


Indlekofer-Knoepfel